Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Ai, meus ovo

Publicado em 04/04/2026 às 06:00.

Seu João Xavier*

Preto, branco, marrom, amargo, ao leite, com nozes, com avelã, com coco, com morango, com rum, com Amarula, com doce de leite, com café, champanhe... não importa! Amo chocolate! Arriscaria dizer que todo mundo ama, mas sei que sempre existe aquela pessoa do contra que, por alguma configuração de fábrica anômala, não gosta daquele gostinho aveludado de cacau derretendo na boca.

Um dos melhores remédios para curar depressão, cólica menstrual, laricas diversas e até algumas crises existenciais, o chocolate é tão especial que já tem dois feriados historicamente dedicados a ele: a Páscoa e o Dia dos Namorados.

Vamos passar brevemente pelo 12 de junho e depois retomamos a Páscoa, pois no Dia dos Namorados o objetivo é demonstrar amor e carinho e, com isso, as vendas de chocolate vão às alturas. No entanto, por mais que as caixinhas em formato de coração sejam irresistíveis, a data responde por cerca de 16% das escolhas de presentes, perdendo para perfumes, roupas e cosméticos. Ou seja: chocolate é uma delícia, mas o perfume ainda ganha.

Já o Natal e, principalmente, a Páscoa dominam o mercado do nosso precioso cacau.

No Brasil, são produzidas cerca de 800 mil toneladas de chocolate por ano. Isso representa um mercado de dezenas de bilhões de reais e um consumo médio de aproximadamente 3,9 quilos por pessoa por ano. O que significa que, estatisticamente, existe alguém comendo o meu também.

Há uma estimativa de que mais de 92% dos lares brasileiros consomem chocolate regularmente.

Só na Páscoa, por exemplo, são produzidos cerca de 45 milhões de ovos de chocolate.

Sim.

Quarenta e cinco milhões.

A Costa do Marfim produziu, em 2025, cerca de 2 milhões de toneladas de cacau. Isso representa quase metade de todo o cacau do planeta. Para se ter uma ideia, isso daria algo em torno de 22 bilhões de ovos de Páscoa de 100 gramas.

O curioso é que quem planta o cacau dificilmente consegue comprar o chocolate.

Curiosamente, Jesus, sozinho, apenas com seu nascimento, morte e ressurreição, acabou criando um dos maiores ciclos de consumo do capitalismo brasileiro.

Se isso não for milagre econômico, talvez seja o único caso documentado de teologia aplicada ao varejo.

Mas o que me chamou atenção neste ano de 2026 não foi exatamente a quantidade produzida.

Foram os preços.

A indústria do chocolate tem se atualizado: além das lojas no shopping e dos varais de chocolate nas Lojas Americanas, já pendurados uma semana antes do Carnaval, temos também influencers fazendo cara de quem atingiu o nirvana depois da primeira mordida em um desses ovos gourmet.

Outro dia apareceu para mim, no Instagram, um ovo de Páscoa recheado de tâmaras com chocolate meio amargo e conhaque de baunilha — coisa que eu nem sabia que existia.

O vídeo mostrava a chef escolhendo as tâmaras do tamanho de um ovo de galinha, medindo o conhaque numa garrafa que parecia ter sido retirada de um baú da Ilha do Tesouro, embrulhando tudo num papel maravilhoso e colocando dentro de uma caixa digna de joalheria.

Confesso: assisti hipnotizado.

Quando cliquei para ver o preço, quase precisei de atendimento médico.

R$ 4.100.

Fiquei olhando sem entender as cifras.

R$ 4.100.

O equivalente a três meses de aluguel em muita cidade, um semestre de faculdade particular ou dois minutos dentro de uma loja de chocolate gourmet.

Será que, para comer algo dessa qualidade, vou precisar consultar meu gerente, meu score no Serasa e talvez pedir um empréstimo?

Aceitam financiamento?

Algo como:

Meu ovo, minha vida.

Havia outras opções mais baratas que começavam em R$ 900.

Baratas?

Novecentos reais.

Francamente: que espírito da Páscoa é esse?

A Páscoa não deveria falar de partilha, renovação e esperança?

Mas, olhando algumas vitrines, parece mais um campeonato de quem consegue transformar açúcar em símbolo de status.

E nem vou trazer o assunto do bacalhau aqui, porque meus caracteres para este texto já se esgotaram.

Dear Jesus… fica difícil ressuscitar no terceiro dia assim.

Encaro as lendas e historinhas com bom humor e como mitologia, mas confesso: se um ovo de Páscoa custa quatro mil reais, dá até para acreditar que quem botou esse ovo foi um coelho.

Repare que eu nem disse coelha.

Se fosse, provavelmente seria ainda mais caro.

* Doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

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