Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

As outras vão com a Maria

Publicado em 12/05/2026 às 06:00.

Tenho escrito bastante a respeito do nome das pessoas nos últimos tempos. Acredito que já tive pelo menos três conversas com você sobre isso. Hoje preciso falar do nome mais atribuído às meninas no Brasil: Maria. A cada cem brasileiras, seis se chamam Maria. Trata-se do nome mais popular desde a década de 1930, com milhões de unidades em circulação e crescimento constante.

Sim, Maria lidera. Se analisarmos com frieza empresarial, Maria deixou de ser apenas nome há muito tempo e se tornou cartel. A Maria S.A. atua em todos os estados da federação, lidera o mercado nacional há décadas e atravessa crises econômicas, modismos e trocas de governo sem perder valor de marca. Seu maior movimento estratégico talvez tenha sido justamente a fusão com Ana, criando o holding Ana Maria, referência absoluta no setor dos programas culinários. Sozinha, Ana já reúne suas milhões de admiradoras. Mas foi ao se associar à Maria que consolidou um império do Note e Anote dos anos 1990 às manhãs da TV Globo. A partir daí vieram as subsidiárias de luxo: Maria Clara, Maria Eduarda, Maria Fernanda, Maria Cecília, Maria Vitória e outras filiais espalhadas pelo país, todas operando com alta confiança social. Maria é título honorífico.

É impossível pensar em Maria descolada história da humanidade. Derivada do hebraico Miryam, nome associado a sentidos como “senhora soberana”, “amada” ou “pura”, Maria se internacionalizou de forma invejável. Marie, Mary, Mariah, Marija, Miriam, Mirjam, Mariya, Mia, Masha, Marika, Miren... Na forma latina, extremamente comum em português e espanhol, não deixa dúvidas de que Maria foi mais traduzida que novela mexicana. Estão aí Marimar, Maria do Bairro e Maria Mercedes garantindo a mesma protagonista, o mesmo roteiro, muita emoção, drama e audiência altíssima mesmo na 92ª reprise. Só uma Maria conseguiria essa proeza. Você consegue imaginar uma Sofia fazendo isso, por exemplo? Uma Camila, uma Laura, uma Michele? Nada contra, inclusive tenho até uma cunhada com esse nome. Mas não dá gente. Só a Maria mesmo.

Maria é título de música. É apelido carinhoso no futebol mineiro. Ela mora nas histórias infantis, nos nomes das cidades. Estranhamente a gente não tem um estado com nome de Maria, no Brasil. Maria é estrela! Sejam Três no céu ou sete no tambor... Maria é sincretismo que encruzilha culturas.

Maria é um nome tão forte que acompanha até nomes masculinos. João Maria, José Maria, Antônio Maria. Tenho um amigo chamado Adilson Maria. É como se Maria emprestasse prestígio ao restante do nome.

Se a gente gritar “Maria!” em uma rua movimentada, pelo menos cinco mulheres vão olhar para trás tentando descobrir se o chamado era com elas e duas meninas-crianças vão olhar assustadas.

Maria é doce. Gostoso de pronunciar e de sussurrar. Maria é tão popular que até Deus escolheu para si uma mãe com esse nome. Santa Maria. Ave Maria. Maria Aparecida. Maria das Graças. Maria da Consolação. Maria do Perpétuo Socorro. Maria, valei-me.

Enquanto isso, nas maternidades do país, seguem surgindo Valentinas, Maitês, Antonellas, Chloes e outros nomes que parecem já nascer com perfil no Instagram. Tudo muito bonito, elegante e perfumado. Há temporadas inteiras dominadas por certas escolhas, como coleção de inverno que chega, encanta e depois cede lugar à próxima tendência, né Isabella, Isabelle, Iza...? Algumas já nascem com cara de quem pede brunch, carrega ecobag no ombro e ostenta franja vegana, né Gab? Mas a Maria observa tudo sentada, experiente, chegando descalça, pisando devagarinho e sem precisar de estreia nem lançamento.

Comecei este texto falando do nome mais comum do país e termino convencido de que “comum” é a última coisa que Maria é. Talvez seja por isso que nunca saia de moda: antes de ser nome, Maria virou afeto. Todo mundo tem uma Maria importante na vida. Pode ser a mãe. Avó. Professora. Amiga. E pode ser a saudade também. Maria cabe em tudo: no sussurro, na oração, na bronca, no canto, no amor e na memória. Nome assim não envelhece. Ecoa.

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