Minha mãezinha dizia que, quando eu era pequeno, eu simplesmente não dormia. Era uma luta até que o cansaço finalmente me vencesse e eu desistisse de fazer vigília aos dois meses de idade.
Isso não passou com o tempo.
Ainda aos seis anos, eu achava um desperdício dormir. Queria ficar acordado até altas horas. Minha mãe proibia. Mandava contar carneirinhos. Virar para a parede. Cobrir a cabeça. Nada adiantava.
Dormia muito tarde.
Escutava o silêncio da casa adormecida.
Acordava cedo, cheio de energia, e fazia tudo de novo.
Lembro dessa época como um tempo muito feliz. Escola, casa, brincar, tomar banho, brincar mais um pouco e, por fim, ser arrastado à força para a cama.
Aos quinze anos, durante o ensino médio, ainda passava noites acordado fazendo dever de casa porque trabalhava com a minha mãe no comércio dela durante o dia. Mas já contava os segundos para conseguir tirar um cochilo.
Às terças e quintas-feiras, às duas da tarde, eu tinha aula de inglês no São Bento, numa escola maravilhosa onde ganhei uma bolsa de estudos graças à Tatiana Miranda e à Tereza.
Naquela época, eu pegava o 9101 na Área Hospitalar, em frente ao Teatro Marília, e dormia o trajeto inteiro até lá. Na volta, repetia o ritual. Pedia até ao cobrador que me acordasse caso eu estivesse em coma.
Colocava os fones de ouvido.
Pronto.
Dormia de roncar.
E, muito provavelmente, de babar também.
A vida adulta me fez admirar ainda mais o sono.
Principalmente a UFMG.
Havia aulas que exigiam um esforço quase sobre-humano para manter os olhos abertos numa segunda-feira às sete da manhã.
Sintaxe do Inglês, Morfologia do Português, Filologia Românica, Gramática Tradicional, Teoria da Literatura, Estudos Comparados de qualquer coisa que, até hoje, me fazem perguntar por que as pessoas resolveram comparar aquilo, gente? Cês tão doido. Só pode.
Deixa quieto.
Pelo amor de Deus.
Mesmo assim, eu resistia. Ou pelo menos tentava.
Hoje, aos trinta e poucos anos, continuo sendo um grande apreciador de uma boa noite de sono. Aprendi com o professor Cleiton Aguiar, lá da Neurociências da UFMG, que dormir é uma das coisas mais inteligentes e produtivas que fazemos na vida.
Enquanto estamos apagados, o cérebro reorganiza memórias, consolida o que aprendemos, regula emoções e faz uma espécie de faxina silenciosa em tudo o que acumulamos ao longo do dia. É curioso pensar que passamos boa parte da vida sem nem sonhar com a verdadeira importância do sono, quando ele é justamente uma das formas mais inteligentes de cuidar de nós mesmos.
O problema é que, no último mês, o sono resolveu deixar de me apreciar.
Tenho sido violado por preocupações que assaltam a minha tranquilidade antes mesmo de eu encostar a cabeça no travesseiro. Quando finalmente durmo, meu cérebro parece não receber o aviso. Continua trabalhando em turno integral.
Acordo no meio da madrugada sendo sacudido por algum pesadelo. A injustiça realmente faz um mal danado pra saúde do nosso sono. Há semanas, acordo tão cansado quanto fui dormir.
Poxa vida...
Café, só até às dez da manhã. Energético, nem pensar. Bebida alcoólica? Zero.
Açúcar? Cortei tudo. Minha paciência, confesso, anda em observação. Estou tentando até tomar uma tal de Kêtia para induzir o sono, mas acordo parecendo que não como há semanas. Isso também me preocupa. Aí começo a pensar quando vou conseguir voltar a malhar.
E, pronto... perco o sono.
A vida resolveu fazer uma piada comigo.
Passei a infância inteira fugindo da cama enquanto minha mãe tentava, sem sucesso, me convencer a dormir.
Hoje sou eu quem faria qualquer coisa por uma noite de sono, mas é a minha cabeça que se ocupa de tudo quanto há para continuar acordada.
Descobri, tarde demais, que dormir nunca foi perder tempo.
Perder o sono, sim, dá um trabalho danado.