Este texto pode ser exatamente sobre isso que você está pensando.
C-I-D-A-D-Ã-O? Palavra superestranha. Parece aumentativo de cidade, mas o aumentativo de cidade é, na verdade, cidadezona. O que parece ser brincadeira. Acho que cidadona seria muito melhor. Mas, ao mesmo tempo, cidadona parece ser o feminino de cidadão... O que me leva novamente ao questionamento inicial: o que significa isso?
Bom, fui pesquisar e descobri que, sim, em cidadão tem a palavra cidade. Não com essas letras, especificamente, mas na palavra original, que vem do latim civitas. Essa tal de civitas designava a comunidade constituída por seus habitantes. Com o tempo, civitas, relacionada à ideia de cidade, passou a designar principalmente um espaço urbano organizado, com população, construções, serviços, instituições e vida política. Legal, né?
Nessa civitas moravam quem? Quem? Quem? Diga! Os cives, ou seja, aqueles que possuíam determinado status jurídico, que garantia direitos e também implicava deveres. Mas não se engane pensando que só de nascer ou morar lá na civitas você teria esses direitos. Não!
Para dar pitaco na política, os homens livres, especialmente os mais poderosos, tinham passe livre para votar, ocupar cargos públicos e participar das decisões da cidade. Os patrícios eram a elite tradicional de Roma. Exatamente iguais àquela personagem, a Senhora dos Absurdos, do Paulo Gustavo: meso-hétero, cheios de terras, dinheiro, riqueza, joias, joias, joias e também escravos. Sim!
Sabe as patricinhas e os boyzinhos? Eram os filhos dos patrícios, integrantes desses grupos familiares aristocráticos que, nos primeiros tempos de Roma, concentravam privilégios políticos e religiosos.
Estava quase me esquecendo que havia os plebeus também. Coitados! Trabalhavam na escala 6x1, pegavam dois ônibus para ir trabalhar, não tinham carteira assinada, não podiam usar o SUS, os filhos nunca entravam na universidade... Horror! Horror! A única forma de se sentirem gente era ir à igreja nos fins de semana, pois lá todos são iguais perante a Deus.
Seu João, e as mulheres? Eu as deixei por último porque era lá que elas ficavam. Podiam ser cidadãs romanas e ter certos direitos civis e patrimoniais, mas votar e ocupar cargos políticos, nem pensar! Ou seja, lá na civitas de Roma, a distribuição dos direitos era uma verdadeira brotheragem. Ou é broderagem? Enfim, algo deliberadamente entre homens e nem precisava de sigilo! Todos sabiam.
A essa altura, você já entendeu que cidadania não é simplesmente estar em um lugar ou ter nascido nele, certo? No nosso caso, o de Roma, não bastava nascer na cidade para ter direitos políticos. Era preciso ser reconhecido como parte daquele grupo que podia participar das decisões, e esse reconhecimento não estava ao alcance de todo mundo. A cidadania era um privilégio distribuído de maneira desigual. Hoje, cidadania significa muito mais do que pertencer a uma cidade. Envolve ter direitos civis, políticos e sociais, cumprir deveres e poder participar da vida coletiva. A grande virada é que a cidadania contemporânea se fundamenta na igualdade de direitos, embora ainda existam muitas barreiras para que ela seja plenamente exercida por todas as pessoas.
Na sua opinião: os patrícios continuam existindo? Os homens brancos, os aristocratas, as patricinhas e os boyzinhos, o alto clero, todos reivindicando os espaços de poder e dominação que sempre foram seus, de seus pais, avós e familiares? Quem são eles hoje em dia? Se tivéssemos todos nascido lá naquela tal de civitas, como seríamos tratados de fato? Seríamos amigos e teríamos os mesmos acessos que Luciano Huck, Neymar e Virginia? Ou seríamos apenas mais um Pereira, Ferreira, Miranda, Souza ou Silva, desejando um país mais justo para todas nós?