Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Cobreiro

Publicado em 15/09/2026 às 07:00.

Você já foi benzido? Eu já, pela Dona Rosinha, avó do Boquinha, meu colega de escola, que morava com a família no São Lucas, bairro onde cresci em Belo Horizonte. Para início de conversa, ela era uma benzedeira poderosa, de primeira linha! Estava na faixa etária dos 280 anos de idade, mais ou menos, aos meus olhos de criança. Fazia de tudo: desde o básico, que é cortar um cobreiro e tirar um olho gordo, até procedimentos mais sofisticados, tipo desvirar um vento virado e levantar uma espinhela caída, seja lá o que for isso. Uma vez, minha avó me levou lá para ela cortar um cobreiro que apareceu no meu tórax. Quando chegamos, Dona Rosinha estava justamente colocando uma galinha de cabeça pra baixo num tipo de funil de alumínio que parecia ter sido produzido por ela mesma nos tempos da pedra lascada. A coitada da galinha ainda bateu as asas, resistiu bravamente, cacarejou com dignidade, mas não teve nem tempo de entender o que estava acontecendo.

Minha avó, prática como toda avó mineira, levantou minha camisa e mostrou o cobreiro pra Dona Rosinha, que olhou de longe, ajustou o lenço na cabeça e, sem dizer uma palavra, passou a faca no pescoço da galinha com tamanha destreza que a penosa desencarnou sem nem perceber que tinha morrido. Enquanto o sangue gotejava numa panelinha estrategicamente posicionada, eu fiquei ali parado, completamente em choque, sem saber se olhava pra galinha degolada, corria ou fingia costume. Não que tivesse muita escolha, pois era apenas a hora do almoço, absurdamente normal, em um quintal mineiro onde cobreiro e frango são cortados com a mesma faca.

Sim!

A Dona Rosinha amolou aquela mesma faca numa pedra, cortou um caule de mamona e me entregou para segurar contra o batente da porta de madeira. Então, deu sete facadas no caule, uma por vez, após recitar: “Te corto cobreiro, cobreiro eu corto. Louvado seja o nosso Senhor Jesus Cristo, Louvado Seja.” A cada repetição, uma facada no caule, cada vez mais perto da minha mão. E falava: “Não pode soltar. Se soltar, morre...”

Veja bem! Saí de casa para cortar um cobreiro, e descobri que poderia morrer a qualquer momento. Ainda mais depois de ver a galinha sangrando gota a gota. Até hoje não sei quem morreria: se era eu, o cobreiro, o caule... Depois de tudo, Dona Rosinha me perguntou por sete vezes, enquanto me batia com uma folha de espada de São Jorge: “O que que eu corto?” E me chicoteava antes de eu responder: “Cobreiro.” Depois, mais alto “O QUE QUE EU CORTO?” E eu já choramingava “Cobreiro.” Segurando o caule com toda a força, para não morrer! E poder voltar para casa. Uma hora, fiquei com tanto medo daquela faca balançando no ar, apontada pro meu rosto, que mordi a língua tão forte que tive certeza de que ela tinha sido cortada pela Dona Rosinha. No impulso, quando levei a mão à boca, tomei uma chicotada com a espada de São Jorge no braço e ouvi a pergunta: “O QUE QUE EU CORTO?” Quase respondi: “Minha língua”. No cantinho, de cabeça baixa, minha avó, de olhos fechados, lenço na cabeça, com os dois braços encolhidos próximos ao corpo e as mãos erguidas para o céu, rezava baixinho um “Salve Rainha” ou um “Salve meu neto”, sei lá! Enfim, graças à Dona Rosinha, aquele cobreiro nunca mais voltou... e nem eu! Louvado seja o nosso Senhor Jesus Cristo: louvado seja!

Dona Rosinha era maravilhosa: benzia as mulheres grávidas para tirar enjoos, os bebês para que dormissem a noite toda, curava criança aguada. Muito melhor e mais perto que o posto de saúde lá da Igrejinha. Infelizmente, algumas dessas pessoas já faleceram e registrar um pouco da minha memória sobre elas é uma maneira de eternizá-las. Saber de onde viemos e de onde brotam as raízes que sustentam o tronco da nossa vida é algo maravilhoso. Escrevendo sobre isso, fico curioso para saber como que eles curam o cobreiro hoje em dia. Será que sabem dessas histórias e personagens? E você? Ainda mora ou visita o lugar onde cresceu? Por quais caminhos você tem andado, ultimamente? (Fragmento da crônica: Rua Mica – Livro: O homem grávido – Ed. SJX, 2025 - Seu João Xavier)

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