Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Com todo respeito?

Publicado em 25/08/2026 às 06:00.

Sou injusto. Confesso.

Preciso admitir isso em rede nacional porque reconhecer um erro também é uma forma de caráter. Faz tempo que implico com o povo paulista. E, convenhamos, tenho meus motivos. Quem desinventou o cuscuz e ainda nos presenteou com o véio da Havan não merece passar completamente ileso pela história.

Mas percebi uma coisa: quase nunca implico com o outro vizinho do Sudeste.

Os carioca.

Já começo assim, com os dois pé na porta, só para implicar com o plural que eles insiste em economizar.

Mermão, com todo respeito? Acho que a gente podia conversar sobre isso. Não que um s faça tanta diferença para nós, mineiros, que engolimos uma sílaba inteira sem pedir desculpa. A gente fala prucê, cêvai, nóssinhora e ainda se espanta com quem não entende esse trem.

A implicância nasceu quando ouvi a carioca dizendo:
— Os menino chegou.

Meu ouvido de professor deu aquela coçada. Pensei: “Meu Deus, esqueceram o plural no ônibus Rio–Belo Horizonte.”

Só que aí eu comecei a prestar atenção.

E desisti.

Acabei concordando com os carioca.

É muito mais elegante marcar a quantidade uma vez só.

Se o artigo já avisou que são vários, por que obrigar o substantivo e o verbo a repetirem a informação? Na escrita, tudo bem. O plural ajuda, organiza, evita ambiguidade. Mas na oralidade... quem tá fazendo essa contabilidade toda?

Aliás, a língua falada é preguiçosa por natureza. E ainda bem. Imagina se, no meio de um jogo do Flamengo, alguém gritasse: “Os jogadores adversários encontram-se em posição irregular!” Até terminar a frase, o gol já tinha saído.

O curioso é que toda região tem sua economia particular.

Mineiro economiza sílaba. Carioca economiza plural. Paulista economiza no bom senso. Acho que é justamente isso que mais me fascina na língua portuguesa. A gramática organiza o idioma. Quem o mantém vivo, porém, é as pessoa.

Então retiro oficialmente metade das minhas implicâncias com os carioca. Metade só, porque ainda preciso conversar seriamente com eles sobre essa mania de chamar todo mundo de “querido”. Não importa se você acabou de chegar, se é amigo, desconhecido, motorista de aplicativo, garçom, atendente de farmácia ou a pessoa que acabou de furar sua fila. Para o carioca, todo mundo pode ser querido. E eu acho isso de uma generosidade quase irresponsável. Nós mineiros precisamos de anos de convivência, muito café, pão de queijo de qualidade, saber de quem você é filho e pelo menos três encontros casuais antes de promover alguém a “querido”. O carioca não.

Você chega, fala duas frases e pronto: “Querido, você sabe onde fica a rua tal?”. É uma intimidade concedida em velocidade olímpica. E o mais irritante é que funciona. Você pode estar preparado para bater boca com aquele povo lá da Tijuca, reclamar da linha vermelha, discordar dos 10%, implicar com Niterói. Aí vem um “querido” e desmonta metade da nossa argumentação. Porque, no fundo, por mais que eu tente, preciso admitir: os carioca são uns querido mesmo. Boto fé.

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