Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Comer faz mal!

Publicado em 16/12/2025 às 06:00.

Você não leu errado. Comer faz mal, pelo menos no ano de 2025, no Brasil. Há duas semanas, estava no sacolão do bairro, andando devagarzinho igual quem passeia numa galeria de arte cujas obras não se pode tocar, neste caso pelo preço, quando vi uma promoção enorme do tomate a R$ 0,99  o quilo. Imperdível! Ao chegar em casa, por algum motivo, ao invés de guardá-los apropriadamente na geladeira, refrigerados, coloquei tudo no armário de mantimentos, e por lá ficaram. Duas semanas depois, encontrei a sacola que achava ter perdido e eles estavam intactos lá dentro. Pasmem!

Lembro dos tomates da minha infância. Era chegar em casa e fazer a salada ou o molho com carne moída pro macarrão porque bastavam duas horas na fruteira e o tomate já começava a murchar de medo. Dois dias fora da geladeira e virava uma papinha melancólica, meio triste, meio poética...

Rapidamente fui pesquisar na internet quanto tempo um tomate supostamente duraria fora da geladeira e descobri que, após 15 dias, eles deveriam estar parecidos com ingredientes de poção de caldeirão de bruxa, e não em perfeito estado. Lógico que pensei no coquetel molotov que deveria estar nesse tomate e fiquei com medo.

Pesquisando mais, descobri que no Brasil a quantidade de agrotóxicos liberados já está pra lá do absurdo: são mais de 560 ingredientes ativos escorrendo felizes pelas cascas dos alimentos, e uma parte generosa deles, entre 30% e 40%, é proibida na Europa, no Canadá, na Noruega, na Islândia e em qualquer outro lugar onde o pessoal olha pro veneno e pensa “melhor não comer isso” ou “será que eu deveria oferecer uma maçã caramelizada em veneno para a minha filha de 4 anos?”.

Aqui, porém, eles viram tempero invisível. Alguns dos mais famosos, como glifosato, atrazina e clorpirifós, são tratados lá fora como ingredientes non grattus, mas por aqui circulam com crachá de acesso total às prateleiras, banquinhas de feira e afins. Juro que peguei o tomate na mão e falei: “Meu filho, você não vai estragar nunca, não?”. Se ele tivesse boca, teria respondido: “Estragar pra quê, Seu João? Tô aqui blindado em glifosato, meu anjo, químico fino, importado. Quem estraga agora é você”.

Aí eu entendi por que meu tomate sobreviveu estoicamente quinze dias no armário: aquilo não era mais um fruto, era um allien vegetal daquele filme A Experiência, blindado por uma química tão avançada que, hoje em dia, o tomate é 5G, resistente a tudo, capaz de sobreviver à guerra nuclear, tempestade solar e ao meu armário de mantimentos.

No fundo, acho que eu só queria um tomate que durasse pelo tempo de antigamente, natural, frágil e normalzinho. Porque fruta que não envelhece é aviso de que, quanto mais a comida dura, mais frágil fica o corpo de quem a consome. E ninguém merece adoecer por insistir em comer saudável.

O tomate durar quinze dias me assusta, mas a gente durar menos é dureza! Saber que essa pequena eternidade do alimento tem preço, e quem paga é o SUS, as famílias, os corpos pretos vulneráveis nas periferias, que comem apenas aquilo que está na promoção, apenas aquilo que os donos do poder permitem chegar à mesa do pobre. No Brasil, o veneno é barato, mas o tratamento é caríssimo. No fim das contas, a promoção não é do tomate, é da doença: compre um quilo de tomate que dura 15 dias e ganhe, de brinde, uma terceira orelha na bochecha. Tô fora!

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