Há combinações de palavras que doem mais do que deveriam. “De volta à realidade” talvez seja uma das mais cruéis depois de semanas de prazer, descanso e deslocamento. Especialmente quando essa tal realidade destoa brutalmente do que se vinha vivendo.
Passei três semanas desacelerando o sotaque mineiro, abrindo vogais, chiando os esses e transformando meus "te, ti, de, di" em algo perigosamente próximo do espanhol. Curtindo uma boa Ré-ci-fe, com três sílabas, e não duas, como a gente insiste em dizer lá embaixo, em Minas. Comendo paçoca com macarrão. O sudestino que desconhece a iguaria não se avexe. Sempre há tempo de subir e aprender. A versão clássica aparece mais em Natal, mas também pode ser encontrada em Jampa, para quem ainda não sabe que Jampa é João Pessoa, PB.
Praia. Água de coco. Ensopados de polvo, lula, camarão, ostra, pescados diversos. Uma rotina que facilmente se confunde com um fragmento do paraíso. Sorrisos e abraços de Alana e de Angela duas amigas, Potiguar e Paraibana, que são verdadeiras embaixadoras do melhor do Nordeste. Um xêro pra elas, visse?!
O único dissabor que enfrentei foi um golpe na padaria ao colocar no prato algo que eles ousaram chamar de pão de queijo. Infelizmente, o queijo passou correndo lá na linha do Equador e se perdido no caminho.
As descobertas gustativas foram tão intensas que relevei essa pequena agressão. Em compensação, o pãozinho de tapioca parecia vindo de outra galáxia. Justiça seja feita.
Semana passada contei sobre a Dona Loura, voz de gaúcha, que arrumou candonga comigo em Jampa e encerrou o debate com um “descansa, militante”. Pois levei o conselho a sério. Descansei. Entrei em outro ritmo. Agradeci silenciosamente todos os caminhos que me levaram até ali. Aproveitei cada segundo. Só não foi barril dobrado porque não estiquei até Salvador.
Mas tive que aceitar a convocação para ser arremessado de volta à realidade. Essa volta nunca é simpática. Ao menos ela acontece por etapas. Não é um soco direto; é uma sequência de pequenos abalos.
Primeiro, Guarulhos. Lotado. Cinza. Terminais que parecem não terminar. Gente correndo como se houvesse uma sirene invisível anunciando o fim do mundo. Depois, uma conexão apertada, sessenta minutos sob o sopro insistente de uma ventoinha que lançava um ar gelado de procedência duvidosa direto no meu rosto. Em seguida, o desembarque nos Confins da Terra. Gente, por que o aeroporto de BH é tão longe?
Ali começa o esporte radical: disputar carro por aplicativo ou negociar com um taxímetro que aparentemente calcula em velocidade da luz ou segue um fuso horário próprio, talvez solar, talvez marciano.
No Barro Preto, parado no sinal, observei um bloquinho atravessando a rua. Uma moça com o rosto completamente coberto de barro me encarava sorrindo. Fiquei pensando no trabalho que daria para remover aquilo do cabelo e em quanto tempo ela precisaria ficar de molho até recuperar a cor original. Cada um com seu ritual de purificação. Justo. O ano precisa começar para todos, né?
O sinal abriu. Cheguei em casa. Antes mesmo de estacionar, a voz mecânica do aplicativo, que soava tão exausta quanto eu, anunciou com entusiasmo programado: você chegou ao seu destino.
Só não tenho certeza se era aqui mesmo que eu queria ficar.