Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Debate presidencial com tendências borderline

Publicado em 20/10/2026 às 06:00.

O debate eleitoral entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado no dia 18 de outubro, na Band TV, foi qualquer coisa, ou melhor, várias coisas, exceto um debate presidencial. Confesso que estava muito animado para assistir àquele confronto de ideias e finalmente descobrir o que Flávio Bolsonaro, de fato, gostaria de propor para este país. Queria ouvir como responderia às notícias sobre escândalos, investigações e contradições que vêm ocupando as páginas dos jornais. Esperava propostas, argumentos, compromissos e, sobretudo, alguma demonstração de respeito pela inteligência do eleitor. Entretanto, não foi isso que encontrei.

De um lado, Lula, cujo governo acompanho, uma figura central da política internacional, que, ao longo de sua trajetória, recebeu títulos de doutor honoris causa de universidades estrangeiras, participou de fóruns internacionais e abriu repetidamente a Assembleia Geral das Nações Unidas, levando ao centro do debate mundial temas como fome, desigualdade, desenvolvimento e soberania. Nada disso o torna imune a críticas, nem dispensa a cobrança por explicações e responsabilidade pública. Mas é parte de uma trajetória política que precisa ser reconhecida com seriedade.

Do outro lado, Flávio Bolsonaro, candidato que carrega o peso político do sobrenome e uma série de controvérsias que exigem esclarecimentos. Há as relações e proximidades com pessoas ligadas às milícias, as suspeitas que cercaram a investigação sobre a chamada rachadinha em seu gabinete, o levantamento jornalístico que identificou 51 imóveis adquiridos total ou parcialmente em dinheiro vivo por integrantes da família Bolsonaro ao longo de décadas e, mais recentemente, questionamentos sobre a transferência da posse de um imóvel de luxo pertencente à União, episódio que envolve alegações de intermediação indevida e que Flávio contesta. Soma-se a isso sua aproximação política com Donald Trump e o alinhamento a pressões externas que, em nome de interesses políticos e econômicos, podem colocar em risco a autonomia brasileira. Quando se trata da soberania nacional, não estamos falando de uma disputa entre políticos, mas do direito de um país decidir seus próprios rumos sem aceitar tutela estrangeira.

O que se viu na Band, porém, esteve muito distante do que se espera de uma disputa presidencial. O encontro estava previsto para durar cerca de duas horas, mas, para mim, bastaram poucos minutos para que a expectativa desse lugar à frustração.

Provocações, respostas que fugiam das perguntas, deboche, acusações, interrupções e declarações que exigiam comprovação ocuparam o espaço que deveria ser dedicado à discussão de propostas. Em vez de esclarecer o eleitor sobre os projetos de país em disputa, o debate frequentemente parecia convidá-lo a escolher um lado numa briga vexatória desses programas de auditório tipo o Ratinho ou Casos de Família.

Nos grupos dos quais faço parte, colegas de profissão, sociólogos e filósofos comentavam, estarrecidos, a sucessão de farpas e ataques que destoavam de qualquer expectativa de civilidade, boa-fé, inteligência política e respeito pelo povo brasileiro. Não se trata de exigir candidatos impecáveis, incapazes de confronto ou de respostas duras. Democracia não é concurso de simpatia, e debate político não precisa ser uma conversa de salão. Trata-se de exigir o mínimo: que quem pretende governar um país consiga apresentar ideias, sustentar argumentos, responder por suas escolhas e compreender a dimensão da responsabilidade que reivindica. Ficou explícito para mim que Flávio Bolsonaro desrespeitou todas essas premissas.

Enquanto o candidato ignorava o verdadeiro papel de um debate presidencial, sua pequenez política, a falta de inteligência emocional e de boa-fé ficavam expostas diante de todo o país, como uma fratura aberta.

Lamentável constatar que a sintomática cadeirada de Datena em Pablo Marçal, durante aquele debate, em 15 de setembro de 2024, tenha servido de semente para um rebaixamento do combate político. Desliguei a televisão com a sensação de que o problema não estava apenas no que foi dito, mas também em tudo que deixou de ser discutido, respondido e esclarecido.

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