Tem dia que a gente faz de tudo para não entrar numa briga. Tudo. Ho’oponopono, Meditação guiada, respiração consciente, promessa mental de “hoje não”. Ainda assim, a vida insiste em nos colocar em situações tão toscas que, quando a gente menos percebe, está batendo boca com uma mulher loura, cabelo Ana Maria Braga na fase Supla, na fila do supermercado.
Ela queria passar na minha frente depois de vinte minutos de fila. Motivo: estava só com dois produtinhos e ia pagar no cartão. Simples assim. Não fosse a coreografia corporal da criatura: braços cruzados com força sobre o peito, pé batendo freneticamente no chão, fazendo a bolsa trepidar como um pêndulo de impaciência, e o olhar acusatório, como se eu fosse o responsável direto pelo colapso logístico do varejo nacional, talvez eu até cedesse. Eu cedo. Sempre cedo. Mas ela não veio mansinha. Veio colonial. Reivindicando aristocraticamente o direito de passar na frente porque tinha poucos produtos, pressa e claro, desprezo pelas 8 pessoas na fila...
Esse foi o combo que me tirou do sério.
— Com todo respeito, senhora… primeiramente bom dia, tudo bom?
— Não. É que eu…
— Não me diz respeito.
Cortei. Odeio falta de educação. E completei, já em modo mineiro-irônico-passivo-agressivo:
— Uai, sinhá? É só vós-mecê que tem pressa?
Segundo golpe:
— Além disso, a senhora está na fila errada. A de idosos é ali.
Ela devia ter, no máximo, cinquenta anos. Agoniada com o ataque, abriu a boca para responder quando dei o xeque-mate, aquele que encerra partidas e amizades:
— Seus privilégios brancos não valem aqui.
Sem argumentos, ela soltou o clássico:
— Ai, ai, ai… descanse, militante. Disse levantando a mão como se estivesse sob ataque.
Foi nesse momento que tive um lampejo de lucidez. Olhei ao redor. Eu estava no Supermercado Jampa, em João Pessoa. Havia menos de vinte e quatro horas que tinha chegado de férias. Estava brigando com uma desconhecida loura, de sotaque não grato, que me soou vindo de alguma região das partes baixas, e quase sempre vergonhosas, do Brasil. Tudo isso embalado por um sonoro “descanse, militante”.
Olhei bem pra ela e disse, com a honestidade que só o cansaço sociológico me causa:
— Olha, dona, de coração… eu tô tentando descansar.
Mas parece que o capeta sai dos pampas ou da Serra, atravessa oito estados e vem atormentar a gente até em Tambaú.
Vai t...