Sára Zarâ. Pode ser que você já tenha ouvido falar desse nome ou que, nas últimas semanas, alguma coisa sobre ela tenha chegado à sua bolha do algoritmo. Mineira, de Belo Horizonte, Sára deixou Minas aos 14 anos e seguiu para São Paulo. A vida por lá não começou com tapete vermelho. Foi frentista, atendente de call center, faxineira e, mais tarde, encontrou nas tranças uma profissão e um caminho para construir sua própria história. Das tranças vieram as redes sociais. Das redes, a comunicação. Da comunicação, uma voz que passou a falar sobre racismo, desigualdade, machismo e representatividade.
Muito carismática, seus vídeos alcançaram milhões de visualizações e sua presença pública ultrapassou as redes. Até aqui, só tenho elogios. Gosto de ver uma mulher negra transformando sua trajetória em ferramenta de comunicação e dando visibilidade a pautas tão caras para quem luta por igualdade de gênero, justiça social e reparação racial. Entretanto, ao decidir entrar para a política, no rolê com o poder, Sára parece ter entrado também em uma contradição que merece ser discutida.
O anúncio de sua pré-candidatura a deputada federal por São Paulo pelo Avante foi, para mim, um coice de realidade. Digo coice porque essa palavra mantém bem aterrada esta experiência que te derruba no chão.
E é aqui que começa a minha Opinião Intrusiva.
O primeiro erro de Sára é, sendo quem é e tendo construído a trajetória que construiu, escolher uma legenda cuja posição política não parece dialogar de maneira evidente com o campo progressista ao qual sua imagem pública costuma estar associada.
Sára chega ao Avante carregando uma trajetória fortemente associada ao combate ao racismo e à defesa de direitos. A legenda, por sua vez, possui sua própria história, seus próprios interesses e suas próprias alianças, algumas delas bem desassociadas desses ideais.
É importante que uma mulher negra ocupe espaços de poder. É importante que alguém cuja trajetória passou por trabalhos precários, empreendedorismo, comunicação e ativismo chegue à disputa eleitoral. É importante que outras pessoas possam olhar para ela e imaginar que aquele lugar também pode ser delas.
Mas existe uma diferença enorme entre ocupar um espaço e saber o que será feito dentro dele.
Representatividade sem projeto vira iconografia social. Serve para dizer: “Temos uma mulher negra no nosso partido”. E fotografia não vota, não legisla, não apresenta emenda, não participa de comissão, não enfrenta liderança partidária e não decide orçamento.
O que me leva automaticamente ao segundo erro: subestimar o poder da legenda.
No Brasil, a política não termina no candidato. Existe partido, bancada, liderança, comissão, votação, negociação, interesses regionais e uma infinidade de acordos que raramente cabem em um vídeo de um minuto ou em um texto de quatro mil caracteres. E isso importa porque, quando a legenda se coloca de um lado do tabuleiro e você construiu sua trajetória falando justamente com quem está do outro, não basta dizer que continua jogando o mesmo jogo: é preciso explicar para quem você está jogando.
Na política, você precisa negociar. Convencer. Ceder. Esperar. Votar. Construir maioria. E, algumas vezes, escolher entre duas alternativas ruins.
É aí que a política deixa de ser discurso e passa a ser poder.
E aqui estão as perguntas que me interessam:
Sára, então, você está disposta a negociar a identidade política construída durante anos, uma audiência, uma história de vida e a expectativa de pessoas que passaram a enxergar em você uma representação possível, para operar politicamente dentro de uma lógica partidária que, em vários aspectos, antagoniza as pautas que ajudaram a construir sua trajetória? Quando chegar a hora de escolher entre aquilo que o partido deseja e aquilo que sua experiência como mulher negra brasileira lhe ensinou a defender para sobreviver, de que lado você terá condições de permanecer?