Você se lembra do programa Irritando Fernanda Young, que passava na GNT? A proposta era simples e genial: colocar a própria Fernanda Young diante de pequenas situações cotidianas cuidadosamente arquitetadas para provocar sua irritação. Nada grandioso. Nada trágico. Apenas aqueles detalhes mínimos que têm o poder de tirar qualquer um do sério. E era justamente isso que tornava tudo tão humano.
Todo mundo tem um ranço particular de uma palavra ou expressão que acende uma irritação instantânea. Nem falo, necessariamente, das discussões acaloradas. Entre irmãos, por exemplo, a perda de paciência é mais rápida e, não raro, explosiva.
Lá em casa, quando éramos crianças e pré-adolescentes, era uma mania de colocar apelidos e ficar imitando só para irritar. Depois dos quatorze anos, cada um estudando em um turno, já não havia tempo suficiente para as famosas briguinhas. Mas antes disso era intenso.
Minha irmã adorava a “Sandy Junior”. Logo, eu a chamava de TuruTuru só para provocar. No contragolpe, ela me chamava de Fada Bela. Crianças.
Hoje isso mal-mal nos faz rir. Quem dirá nos irritar.
Como pesquisador que sou, perguntei a dez mulheres quais vocativos mais as irritavam. Os campeões foram “Minha flor” e “Meu anjo”. Pronto!
Desde então, quando recebo um “Meu bem”, devolvo um “Meu anjo” ou “Minha flor”. É impressionante. Realmente isso irrita as moças numa rapidez. Os olhos escurecem imediatamente. O sorriso vira quase um rosnado sem som... Te juro procê! Teve uma vez em que quase tive que pedir desculpas, na padaria.
São apenas os pães de queijo, meu bem?, ela perguntou cantarolando, com um sorriso que misturava gentileza e protocolo.
A moça do balcão me olhou com tanto ódio que seus olhos ficaram pretos, igualzinho àquelas cenas de filme de terror em que a assombração toma conta do corpo da pessoa ou da criatura no porão ou no sótão. Crendeuspai!
Ela embalou os pães em silêncio, com uma calma suspeita. Quando me entregou o pacote, abriu um sorriso milimetricamente calculado, piscou para mim e disse: De nada, querido.
Querido? Eu senti o impacto. Foi técnico. Preciso. Cirúrgico. Não era gentileza. Era estratégia de sobrevivência. Ali, naquele balcão, eu percebi que tinha encontrado alguém à altura. Treinada. Uma querida que não estava mais no período de experiência. Nunca mais ela me chamou de Meu bem. Já eu passei a usar essa mesma tática com homens que me chamam de irmão, mano, brother ou parceiro enquanto prestam algum serviço.
Ô mano, puxa o carro um pouco pra frente, orientou o frentista.
Claro, Meu Bem. Só se for agora, respondi, retirando os óculos escuros com a solenidade de quem sabe exatamente o que está fazendo.
No fundo, talvez o programa da GNT estivesse certo. A vida é uma sucessão de pequenos testes de irritabilidade disfarçados de gentileza. Às vezes, um “Meu bem” já basta para desencadear um “Minha florzinha” e inaugurar uma Guerra Fria entre atendente e cliente no balcão.
Eu já sei. Você vai me julgar. Vai dizer que queria ter problemas assim, que há tragédias maiores no mundo e que alguém te chamar de “Meu bem” é apenas uma gentileza, um carinho, um charme mineiro e que isso, provavelmente, seria o menor dos seus dramas. Eu te entendo. De verdade. Mas não é querendo ser ranzinza... com todo respeito, e por favor não me leve a mal, mas certas palavras vêm carregadas de um afeto que a gente não pediu. E quando a gente não pediu, isso incomoda, Meu anjo ;)