E eu sei exatamente o que isso provoca, porque é a mesma sensação que senti quando abri um e-mail anunciando: “já está disponível o último volume da revista Pipipi Popopó”. O coração deu um pulo, a mão tremeu, a tristeza veio pronta, até que eu percebi, com raiva, que não era um fim, era só o número mais recente. Um susto barato, uma emoção mal administrada. Então, antes que você me odeie ou me lamente: não, esta não é minha despedida. É só o meu protesto literário contra esse tipo de terrorismo semântico.
Não me entenda mal, por favor. Não estou reclamando de receber atualizações sobre o que acabo de dizer que gosto. Estou denunciando este adjetivo importantíssimo, mas traiçoeiro, que anuncia o fim de um ciclo, de um hábito ou de uma promessa descabida.
Vou elaborar melhor.
Por exemplo: amo biscoito recheado, mas há um tempo venho sentindo um gosto ruim de farinha de trigo, e aquele sabor delicioso de infância, o prazer do croc-croc, já não existem mais. Então, hoje foi a última vez que comprei. Viu? Fim. Encerramento. The end.
Outro dia recebi um e-mail de uma revista de linguística aplicada, excelente, por sinal, e lá estava escrito: “Está no ar a última edição...”
Como acordei com o ovo virado, não segurei a marimba e respondi:
“Poxa! Que pena! A relevância dessa revista é imensa para a nossa área. Por que ela vai ser descontinuada?”.
Minutos depois, recebo a resposta:
“A revista continuará.”
Uai, mas acabei de ler que era a última! Somos todos linguistas: sabemos que “a última” é a última.
A próxima edição será “A última 2.0”? Depois, “A última — o retorno”? Por fim, “A última última”?
Se não for a última, que tal chamá-la de “a mais recente”?
Sim, estava meio irritadiço e, para ser justo, nem era com a revista em si, mas com a última mensagem que recebi em um grupo do qual me retirei, bloqueei e apaguei.
Agora, devidamente medicado com minha dose de café preto matinal, posso falar com mais tranquilidade: esse negócio de chamar de “última” as coisas é meio zoado.
Estou falando sério. Tenho muito cuidado quando uso essa palavra. E, embora tente fazê-lo sempre com leveza, sorrisos e simpatia, não deixo passar quando alguém me diz: “li seu último livro” ou “sua última crônica”. Na hora, corrijo: “o mais recente, você quer dizer?”. Depois brinco: “vai me aposentar assim tão cedo?”. Rimos juntos, mas, no fundo, o que tento é conscientizar com humor e com propósito. Queria que metade das coisas que falo brincando fossem realmente só brincadeiras.
Imagina eu dizer que é o meu último texto ou trabalho?
Não! Deusolivre! É o mais recente.
O mais recente traz ideia de frescor, de novidade, de renovo.
“Último”, não.
Dependendo da situação, “último” até dá ideia de alívio: o último prato lavado da pia cheia; o último exercício do dever de casa; a última passada de pano depois de faxinar a casa inteira...
Viu? “Último” é coisa da qual a gente muitas vezes nem quer se lembrar.
A última vez que tomei um porre? Horrível.
A última vez que me despedi da minha mãe… que dor!
A última vez que fiz algo obrigado e sem vontade… ai, gente, não dá.
Que as nossas novidades sejam sempre as mais recentes; e que venham mais, muito mais para nós. Não dá para colocar “último” junto de algo que a gente ama. Inimigos do fim. Mesmo quando estamos falando da última frase de um texto que vai nos deixar saudades porque nos fez rir, refletir e descansar a mente...