Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Introdução à vida adulta para adolescentes – Parte 1

Publicado em 22/09/2026 às 06:00.

Se eu fosse definir adolescência, diria que é a fase da vida em que somos mais otimistas, o que, convenhamos, é uma coisa muito boa. A maioria de nós, que somos ou fomos adolescentes, nessa fase, vê ou viu o melhor das pessoas, das situações e vive ou viveu convencida de que pequenos rearranjos em nossas vidas bastariam para darmos uma guinada de 180º, porque, se for 360º, a gente volta para o mesmo lugar, né verdade?, e fazer tudo completamente diferente de nossos pais, avós ou seja lá quem for o adulto que se ocupe de nos manter vivos e seguros no mundo. Pois bem, com isso em mente, trago algumas lições que aprendi durante essa fase e espero poder ajudar sujeitos entre 13 e 18 anos a se atualizarem sobre o que acontece tão logo passamos a ser chamados de jovens.

“Não vejo a hora de sair dessa casa!”. Geralmente exclamada em ataques de fúria ou de birra, por algum descontentamento, essa frase será provavelmente a primeira a ser desconsiderada quando você estiver longe de algumas benesses que só a casa dos pais ou responsáveis nos oferece. Seja uma fruta que brota da fruteira, miraculosamente, de um dia para o outro. Ou aquele pote de sorvete cheio de feijão, que faz uma falta danada depois de uma semana inteira pedindo iFood ou comendo salgado, pizza ou outras coisas que não dão sustança. Possivelmente, a frase mudará para “Não vejo a hora de ir na casa da minha mãe.” E, preferencialmente, sair de lá com umas marmitas de comida para a semana, torcendo para ter aquele virado à paulista, um feijão tropeiro, uma feijoada ou, se a mãe estiver especialmente inspirada, uma moqueca. A gente chega na larica e sai parecendo os voluntários da Campanha do Quilo ou da Legião da Boa Vontade. Pensar nisso é importante porque, se vamos sair da casa da mãe, precisamos garantir pelo menos o básico: a alimentação. A necessidade mais elementar de todo animal.

Cozinhar na vida adulta não é tão fácil quanto a Ana Maria Braga faz parecer lá no programa dela. São muitas variáveis que precisam ser consideradas: utensílios domésticos que não sabemos se temos e, se temos, como usá-los? Como ser um alquimista e misturar pós e especiarias para dar aquele sabor comestível? Como corrigir erros culinários sem estragar tudo? Obviamente, a gente vai consultar o YouTube, mas, acostumados a assistir aos vídeos em velocidade 2x, fica complicado entender o processo. Logo, vamos ao TudoGostoso.com.br, mas aquelas receitas de cinco linhas para algo que, a princípio, parece simples, como um delicioso arroz soltinho com feijão, acabam resultando num arroz mais grudado que arroz de sushi, que é uma técnica, inclusive, e o feijão fica para a próxima porque a panela de pressão pode explodir. Não que tenhamos visto alguma explodir ou conheçamos alguém cuja panela tenha explodido, mas a gente sabe que explode. Não é possível que aquele pino girando, fazendo um barulho igual ao de uma sirene de fumaça, seja seguro. Eu não sou minha mãe. Não sei mexer nisso. Não tô louco.

Comprei o feijão. Pus na panela, coloquei água. E venci o medo de me aproximar para desligar depois que deu pressão. Excelente. Depois que ela esfriou, a pressão saiu e consegui abrir, porque não sabia como abrir a panela com ela quente. Fritei um ovo, montei meu prato de arroz de sushi e coloquei uma concha de feijão. Sem sal. Sem gosto. Sem vontade de viver.

Eu não sei por quê, mas me deu uma vontade tão grande de chorar. Mas eu estava com tanta fome que deixei para chorar enquanto limpava a bagunça que fiz na cozinha. Guardei as lágrimas para a hora em que fui lavar as vasilhas e limpar o fogão.

Fiquei pensando: como é que faz para meu arroz e feijão com ovo ficar gostoso igual ao da minha mãe, minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro? A resposta veio alguns dias depois, quando contei tudo pra ela: não era receita. Era prática. Os paranauês que a gente não percebe porque está ocupado demais vendo TV, não vai para a cozinha ajudar e ainda reclama de lavar a vasilha depois do almoço. Na parte 2, estudaremos: “Quando eu tiver minha casa, vou dar festa toda semana e sair com meus amigos todo fim de semana.”

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