Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Isso é tão Brazil Colônia

Publicado em 19/05/2026 às 06:00.

Quanto vale o conhecimento construído por anos de estudo, leitura, formação cultural e experiência profissional? Como calcular o tempo, o processo e a credibilidade produzida por instituições que autorizam alguém a exercer determinada profissão?

Também é preciso considerar os obstáculos impostos pelo racismo, sexismo e LGBTfobia, que ajudam a explicar por que tantas pessoas abandonam sonhos acadêmicos e profissionais no meio do caminho.

Se a trajetória já pode ser difícil para muitos e especialmente mais árdua para outros, de onde vem a coragem de olhar para um professor, palestrante, artista, pesquisador ou escritora e achar que o trabalho intelectual dessas pessoas não vale o cachê ou honorário cobrado?

Me lembro de ter visto no Instagram de uma grande escritora mineira, autora lida no país inteiro, a frase: “Contato para trabalhos remunerados”.

Quando li aquilo, entendi na hora o motivo.

Querem prestígio, público, engajamento e foto bonita no Instagram.

Querem um Exu em Nova Iorque. Mas pagar por isso já parece “bondade demais”.

Outro dia vi a Intelectual Diferentona, mestre, doutora, escritora e palestrante, comentando que demorou anos para entender o valor do próprio estudo, do pensamento crítico e do seu precioso tempo.

Para pessoas negras, isso ganha uma dimensão ainda mais cruel.

Historicamente fomos afastados da escola, da terra e da dignidade.

Mesmo quando atravessamos tudo isso, ainda nos perguntam se pertencemos aos espaços que ocupamos.

“Trabalho no Cefet.”

“Ah… você é o porteiro?”

Antes da fama, perguntavam à Telminha, vencedora do BBB, se ela era empregada doméstica ou babá. No imaginário brasileiro, pessoas negras continuam associadas ao serviço, raramente ao prestígio intelectual. Muito menos à medicina.

Então como ousam cobrar?

Como alguém negro poderia cobrar pela própria arte, pesquisa ou presença? Já não deveríamos estar satisfeitos apenas pelo convite? Felizes por compor a mesa? Gratos pela oportunidade de sermos vistos?

Não estamos satisfeitos.

Merecemos reconhecimento pelo trabalho que realizamos, pela arte que produzimos e pelas reflexões que compartilhamos. E parte desse reconhecimento também é financeiro.

Parem de achar que pessoas negras não merecem seus cachês, honorários e proventos.

Parem de nos parasitar e vampirizar.

Querer construir algo às custas da exploração do trabalho dos outros é super Brasil Colônia, sinhô.

Se querem desfrutar de nossa excelência, paguem por ela. Nenhuma de nossas conquistas foi de graça. Houve tempo, estudo, renúncia e trabalho para chegarmos até aqui.

De graça, até... logo!

Bom, meu contato para trabalhos remunerados: seujoaox@gmail.com

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