Quanto vale o conhecimento construído por anos de estudo, leitura, formação cultural e experiência profissional? Como calcular o tempo, o processo e a credibilidade produzida por instituições que autorizam alguém a exercer determinada profissão?
Também é preciso considerar os obstáculos impostos pelo racismo, sexismo e LGBTfobia, que ajudam a explicar por que tantas pessoas abandonam sonhos acadêmicos e profissionais no meio do caminho.
Se a trajetória já pode ser difícil para muitos e especialmente mais árdua para outros, de onde vem a coragem de olhar para um professor, palestrante, artista, pesquisador ou escritora e achar que o trabalho intelectual dessas pessoas não vale o cachê ou honorário cobrado?
Me lembro de ter visto no Instagram de uma grande escritora mineira, autora lida no país inteiro, a frase: “Contato para trabalhos remunerados”.
Quando li aquilo, entendi na hora o motivo.
Querem prestígio, público, engajamento e foto bonita no Instagram.
Querem um Exu em Nova Iorque. Mas pagar por isso já parece “bondade demais”.
Outro dia vi a Intelectual Diferentona, mestre, doutora, escritora e palestrante, comentando que demorou anos para entender o valor do próprio estudo, do pensamento crítico e do seu precioso tempo.
Para pessoas negras, isso ganha uma dimensão ainda mais cruel.
Historicamente fomos afastados da escola, da terra e da dignidade.
Mesmo quando atravessamos tudo isso, ainda nos perguntam se pertencemos aos espaços que ocupamos.
“Trabalho no Cefet.”
“Ah… você é o porteiro?”
Antes da fama, perguntavam à Telminha, vencedora do BBB, se ela era empregada doméstica ou babá. No imaginário brasileiro, pessoas negras continuam associadas ao serviço, raramente ao prestígio intelectual. Muito menos à medicina.
Então como ousam cobrar?
Como alguém negro poderia cobrar pela própria arte, pesquisa ou presença? Já não deveríamos estar satisfeitos apenas pelo convite? Felizes por compor a mesa? Gratos pela oportunidade de sermos vistos?
Não estamos satisfeitos.
Merecemos reconhecimento pelo trabalho que realizamos, pela arte que produzimos e pelas reflexões que compartilhamos. E parte desse reconhecimento também é financeiro.
Parem de achar que pessoas negras não merecem seus cachês, honorários e proventos.
Parem de nos parasitar e vampirizar.
Querer construir algo às custas da exploração do trabalho dos outros é super Brasil Colônia, sinhô.
Se querem desfrutar de nossa excelência, paguem por ela. Nenhuma de nossas conquistas foi de graça. Houve tempo, estudo, renúncia e trabalho para chegarmos até aqui.
De graça, até... logo!
Bom, meu contato para trabalhos remunerados: seujoaox@gmail.com