Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Me conta três coisas

Publicado em 09/06/2026 às 06:00.

Este ano tem sido diferente dos últimos quinze anos porque tenho tido a oportunidade de ser 100% aluno. Sem aquele modo professor ativado. Modo esse que leva a perguntas de cunho metodológico, pensamento crítico com vistas a auxiliar alguém a enxergar as coisas por outro ângulo. Tenho tido a chance de estar ali, na sala de aula, desfrutando da preparação de outros professores, de seus insights, de suas intervenções e provocações para que eu veja o mundo de outra forma e, assim, expanda meu capital cultural, social e educacional.

Numa dessas aulas, a de Direito e Literatura, o professor sempre começa nosso encontro com a mesma pergunta dirigida a cada pessoa presente:

“E aí, o que você fez desde a nossa última aula?”

Quase todas as respostas são bem-vindas e acolhidas com um par de ouvidos atentos e olhos que parecem ler linguagem corporal. Há espaço para contar, reclamar, desabafar, rir, existir do jeito que se quiser.

Exceto uma palavra.

“NADA!”

“Não existe isso de você não ter feito nada da semana passada até hoje.”

Ele insiste.

Então o respondente reformula. Vai abrindo as gavetas da quarta-feira, os armários da quinta, arejando os baús da sexta, destampando os potes do sábado, abrindo os diários de domingo.

Todos falam.

Todos escutam.

Nesses quinze anos de sala de aula, confesso que o mais próximo disso que vivi foi quando meus alunos do sexto ano contavam acontecimentos inesperados do fim de semana, nas segundas-feiras da escola municipal em que trabalhei no início da década de 2010.

Mas há três semanas resolvi extrapolar o clássico:

“Olá, pessoas bonitas e outras pessoas!”
(nossa piada interna)

“Como foi a semana de vocês?”

E acrescentei:

“Me contem três coisas que vocês fizeram desde a nossa última aula. Se mencionar algo do Cefet, não vale.”

A princípio, os olhos desconfiados me encararam sem muita disposição para embarcar na proposta. Mas insisti:

“Nada não é resposta válida.”

Pouco a pouco, algo começou a mudar.

Na primeira semana consegui pouco diálogo. Na seguinte, alguns corajosos entraram na brincadeira. Semana passada, cheguei e encontrei a sala pronta para contar várias coisas.

“Fui a um rodízio de japonês.”
“Fui pra roça da minha vó.”
“Andei de moto com meu pai.”
“Vi o senhor lá no Mercado Central.”

Finalmente eu tinha conseguido fazer com eles o que meu professor faz conosco toda quarta-feira.

Ontem, porém, numa turma de primeiro ano, as respostas me atravessaram de outro jeito.

“Ajudei minha mãe no serviço sábado. Fui trabalhar com ela. Depois a gente comeu um x-tudo.”

Que delícia. E com o que ela trabalha?

“Faxina. A gente saiu às seis da manhã, começou às sete e, como eu fui ajudar, conseguimos terminar às quatro da tarde. Aí fomos almoçar.”

Senti um nó apertando meu pescoço.

Na mesma sala, outro aluno comentou:

“Ontem trabalhei também. Ajudei meus pais na hamburgueria. Sábado e domingo são os dias que mais vendem. Sábado fiquei lá até às três da manhã, que é a hora que a gente envia os últimos pedidos do iFood. Domingo foi até uma da manhã.”

Lembrei imediatamente de mim mesmo trabalhando com meus pais nas ruas de Belo Horizonte, vendendo cachorro-quente.

Comentei sobre isso e perguntei se mais alguém ali ajudava os pais trabalhando.

Mais algumas mãos se levantaram.

Outros contaram sobre faxina em casa aos domingos porque os pais trabalham em escala 6x1.

Ouvi tudo.

Comentei o que cabia comentar. Rimos do que era engraçado. E, de repente, percebi um garoto dando aquelas pescadas de sono, lutando bravamente para permanecer acordado.

Era o menino da hamburgueria.

Antes, talvez eu fizesse alguma brincadeira para despertá-lo. Mas isso foi antes de saber que ele provavelmente dormiu às quatro da manhã, acordou às seis e estava sentado na minha sala às 7h15.

Voltei para casa pensando que, no fim das contas, meu professor não estava apenas perguntando sobre a semana. Estava ensinando a gente a reparar uns nos outros. E talvez isso também seja educação. Há professores que ensinam conteúdo. Outros ensinam presença. A gente muda completamente a forma de olhar para alguém quando escuta a história antes de julgar o comportamento.

Meu professor tinha razão desde o começo: “nada” é resposta incompleta. Todo mundo está sobrevivendo a alguma coisa.

Quem tem boca vai a Roma. Mas quem tem ouvidos talvez consiga construir um caminho menos cruel até lá.

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