Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Não diga ‘alô’!

Publicado em 17/03/2026 às 06:00.Atualizado em 17/03/2026 às 10:24.

Oi, tudo bem? Não. Acho que não precisa cumprimentar. Não! Espera. Claro que precisa. Mas como começar falando sobre mim sem nem dizer um oi? Oi! Ótimo. E depois do “oi”, o que vou dizer? Ai, odeio me apresentar. Digo, falar sobre mim, fazer a tal apresentação sobre si...

Não que eu não tenha nada a falar. Pelo contrário. Coisa é o que não falta. Mas será que alguém se interessa se eu contar que tenho a língua bifurcada ou que adoro comer pé de galinha, frito, assado, cozido, no churrasco...? Acho difícil de acreditar.

A dificuldade não é sempre a mesma. As situações são sempre cambiantes. Como "voltei" a estudar, todo início de semestre é a mesma coisa. Apresentar-se... nunca é uma tarefa simples. Mesmo porque odeio ser básico. Se estamos em um congresso ou evento acadêmico para o qual fui convidado para palestrar ou debater e me pedem para me apresentar, travo.

Gente, é pra dizer o quê? Onde estudei? Quais idiomas falo? Quais livros li ou estou lendo? Falar sobre títulos? Talvez isso seja útil para que conheçam minhas credenciais, mas e quando não é contexto acadêmico?

Sei lá! Um outro local com outras dinâmicas? O que dizer? Que um dia saí de casa levando o telefone sem fio no bolso achando que tinha pegado o celular? Ou que, meio sonolento após o almoço, assistia desinteressadamente um desses jornais sensacionalistas da hora do almoço quando o apresentador disse, exasperado:

“Não diga ‘alô’, diga ‘eu também estou na Record’. Diga três vezes bem alto para garantir os prêmios.”

O sinal do telefone chamando tocou na televisão e na mesma hora o telefone lá de casa tocou. Não sabia onde havia largado o aparelho que não estava na base. Saí correndo procurando como se estivesse em uma gincana. Quando finalmente achei, gritei: “Eu também estou na Record! Eu também estou na Record! Eu também estou na Record!”

Ouvi do outro lado:

“Boa tarde, poderia falar com Seu João Xavier, por gentileza? É Camilla do colegiado da Faculdade de Letras da UFMG.”

Derreti de vergonha.

“Não é da casa dele não. Você errou o número.” Desliguei. Curioso é que nunca me inscrevi em nenhuma promoção desse tipo, mas no calor da emoção nem me dei conta disso.

Dois minutos depois, o telefone voltou a tocar. Talvez tenha sido o tempo necessário para que a Camilla conseguisse parar de rir. Então, atendi calmamente.

“Oi, Seu João, gostaríamos de informar que o seu diploma já está disponível para retirada, tal e tal e tal.” Uma vibe bem diferente do desespero da Record.

Então, será que deveria usar algo assim para me apresentar? Porque certamente isso diz muito ao meu respeito.

Viu que difícil? Não sei o que falar sobre mim. Deveria dizer o que acho que você quer saber? Mas o que você quer saber de verdade? Talvez eu devesse fazer perguntas e não trazer respostas. Felizmente, agora em eventos eles leem a nossa minibio, o que nos poupa dessa preocupação. Para facilitar, penduram um crachá no nosso pescoço. Assim, podemos olhar despistadamente para o nome da pessoa que adora nossos textos e nos acompanha nas redes sociais, mas cujo nome a gente ainda não sabe.

Lembro ainda de quando ligávamos para as rádios lá no início dos anos 2000 e éramos perguntados: “Seu nome e seu bairro...” Curioso, né? Por que não: “Seu nome e seu signo? Seu nome e sua banda favorita? Seu nome e sua cor? Seu nome e seu apelido?” Coisas que diziam algo sobre a pessoa de um jeito que um simples currículo nunca diria.

E no fim das contas, eu não sabia como começar, emendei um assunto no outro e não sei como terminar este texto. Calma! Vamos começar de novo. Oi, tudo bem? Eu me chamo Seu João, e sim, este é o meu nome. Talvez seja justamente isso que diga mais sobre mim do que qualquer lista de cursos, idiomas ou títulos.

Que a hesitação, a bagunça da memória, o riso contido e os episódios absurdos falem por mim, enquanto sigo tentando encontrar palavras que, de algum jeito, não digam nada e ainda digam tudo. E assim volto ao início, onde tudo começou: tentando me apresentar, sem saber muito bem para quem ou para quê, mas sempre com a certeza de que essas histórias malucas e esse jeito torto de falar sobre mim, de alguma forma, me definem mais do que qualquer frase ensaiada poderia.

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