Então é Natal! Essa frase me irrita. Tenho certeza de que, por mais natalina que a pessoa seja, não tem como ela sair ilesa dessa temporada. Não é pelos piscas-piscas que passo horas tentando desembolar, pelas bolinhas coloridas penduradas na árvore que meu gato adora derrubar e sair futebolando pela casa afora ou muito menos pelas variações de amigo secreto que as pessoas insistem em realizar: amigo doce, amigolate, amigo oculto… mesmo quando nem todos são amigos. Mas isso nunca os parou. Na realidade, já vi até inimigo secreto ser realizado por uma turma de alunos do 3º ano do ensino médio lá no campus de Timóteo, e quase deu polícia. Mas te conto os detalhes desse babado outro dia.
Mas acho que nada disso ganha das festas de família. Porque de amigos ou inimigos você pode até correr, e raramente eles vão te telefonar, mandar mensagem ou te colocar em um grupo sem sua autorização prévia, mas familiares não! E foi isso que aconteceu semana passada, quando a minha tia Preta resolveu me mandar mensagem dizendo que a família faria a festa de Natal na casa dela e que todo mundo está convocado. Depois que minha tia aprendeu a usar o verbo convocar, me sinto o tempo todo sem saída. Ainda mais que não vou viajar este ano, as chantagens da família acabam comigo.
Dois minutos depois, chegou a notificação: Tia Preta te adicionou no grupo “Natal no Quintal”. Com direito a emoji de árvore de Natal, Papai Noel e coração vermelho. De cara, assim que entro, a primeira mensagem que chega é um áudio longo da minha avó, Dona Carolina, dizendo que esse é o último Natal dela, que ela vai morrer e que, se eu não for, ela vai morrer de desgosto antes da hora. Diz também que ficou sentida comigo porque não fui ano passado, quando nem no Brasil eu estava, mas que poderia ter voltado só para o Natal, e mais outras coisas que vão se misturando no áudio, de modo que, no final, nem sei mais sobre o que exatamente ela está falando. Acontece que ela já vem falando isso há uns quinze anos, mais ou menos. Não que eu deseje a morte da minha avó, lógico que não, mas acho uma coisa tão 2010 ficar ameaçando os netos com a própria morte, sabe?
Bom, a lista continuava, com todos os itens menos caros já escolhidos, mas este ano o processo foi diferente. Mandei a mensagem: “Gente, não encontrei meu nome na lista. O que devo levar?”. Minha tia respondeu em áudio, informando que “este ano estamos implementando uma lista especial para os parentes concursados. Depois de consultar o salário no portal da transparência, resolvemos fazer um Natal mais igualitário e proporcional. Seu nome está nesta outra lista, neste link aqui”.
1. O susto que tomei com a lista me fez pensar que era trote da minha tia:
01 banda de um pernil traseiro + 01 Chandon;
01 chester ou peru de pelo menos 2 kg + 01 Chandon;
01 peça de picanha (não pode ser suína) + 01 Chandon;
01 bandeja de frios tamanho grande da Padaria Vianney + 01 Chandon;
01 banoffee tamanho grande do Verdemar + 01 Chandon;
01 torta de limão da Boca do Forno (pode até ser de chocolate com morango) + 01 Chandon;
02 caixas de cerveja (Heineken, Stella ou da cervejaria Albanos) + 01 Chandon;
Aparelho de jantar (pode ser de acrílico) + adivinhem? 01 Chandon.
Gente! Eu não sabia que o Natal seria na casa Angélica e do Luciano Huck, uai! Curiosamente, meu nome já veio escrito logo após o pernil. Motivos: sobrinho mais velho, primeiro a ser concursado e escritor. Enquanto eu ainda estava em estado de choque com a lista dos concursados, meu primo Rafael não perdeu tempo: viu que não tinha saída mesmo e já marcou que levaria a cerveja — aff! Foi ali, diante do pernil com Chandon obrigatório, que entendi tudo. Não era um convite de Natal, era uma avaliação familiar, com critérios objetivos, consulta ao portal da transparência e punição proporcional ao sucesso. Mas o Natal em família, afinal, é uma dessas instituições que ninguém ousa questionar: a presença é compulsória e a resiliência é obrigatória. E assim, olhando meu nome cravado logo depois do pernil, pensei de novo naquela frase que me irrita tanto: então é Natal. Este ano, acho que seria mais barato um amigo oculto. Feliz Natal pra mim. Hohoho.