A cada notícia, torna-se cada vez mais explícito para mim que ser homem é algo difícil. Difícil se você decide ser homem de verdade. Homem com H maiúsculo e com todas as implicações que essa palavra carrega.
Não farei mistério. Trago a tese de imediato.
Só neste fim de fevereiro e início de março, nós, homens, não fizemos distinção alguma. Não diferenciamos a freira de 82 anos, no interior do Paraná, da menina de 12 anos em Indianópolis, no Triângulo Mineiro. E é preciso dizer o óbvio: crianças e adolescentes abaixo dos 14 anos não possuem desenvolvimento cognitivo, emocional ou físico para consentir. A lei reconhece isso. Abaixo dos 16 anos, não podem casar nem praticar atos da vida civil. Criança nunca é esposa. É vítima.
Houve também a adolescente de 17 anos em Copacabana, violentada por quatro homens, um deles ex-namorado. E houve aquela prima abusada pelo tio. O conhecido que agride a esposa. O pai que não paga pensão. Não importa o cenário. O padrão se repete.
Uma amiga pesquisadora da cultura popular, que por anos cobriu manifestações regionais, contou ter entrado em choque ao descobrir que uma senhora com quem realizou um grande projeto, dessas de lenço na cabeça, saia rodada e cafezinho em xícara esmaltada, havia sido espancada pelo marido. Outro senhor de cabelos brancos, chapéu, bigode e cachimbo. Ele quebrou o braço dela. Ela é Rainha de Congado. Nem a Rainha está a salvo.
Não preciso ir longe. Falo da minha própria família. Só recentemente enxerguei um caso de violência doméstica envolvendo uma parente que me levou no primeiro dia de aula na escolinha aos 6 anos de idade. Nunca soube disso. Por quê? Patriarcado. Camaradagem masculina. Silêncio. Acobertamento...
Quando descobri, nesse domingo, e abri a gaveta, os relatos me deixaram sem chão. Inclusive, uma memória antiga voltou. Eu tinha cinco ou seis anos. Estava na festa de noivado, brincando. De repente, a música parou. Fomos embora às pressas. Agora entendo.
Jacques Lacan afirma que recalcamos o que não conseguimos simbolizar. Sigmund Freud já havia nomeado o mal-estar que sustenta nossa civilização. Talvez tenha sido isso. O recalque como mecanismo de sobrevivência.
Ser homem é difícil porque significa ter consciência de tudo isso e ser chamado à responsabilidade. Não há como se dizer homem e permanecer calado.
Precisamos educar nossas crianças desde cedo para enfrentar a misoginia. E é preciso nomeá-la. Misoginia é o desprezo sistemático pelas mulheres. É a ideia de que elas valem menos. É a naturalização da violência contra seus corpos. É a piada que diminui. É o comentário que sexualiza. É o silêncio que protege o agressor. É a cultura que transforma vítima em culpada.
Essa pílula vermelha que muitos de nós, homens, estamos engolindo vai custar muito caro, principalmente quando a violência contra a mulher bater na porta das nossas tias, primas, amigas, filhas... e se não formos nós que a levarmos até elas.
Se não fizermos algo agora, amanhã pode ser tarde. Na verdade, já estamos atrasados. Continuar sendo cúmplice é imperdoável.
Ser homem é difícil. Porque não se trata de força, voz grossa ou genital. Trata-se de romper o silêncio que nos formou. Trata-se de olhar para cada notícia e não desviar mais os olhos. Se ser homem é carregar o peso dessa história, então que seja para interrompê-la. Caso contrário, continuaremos apenas repetindo tudo isso.