Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Ódio fofo

Publicado em 21/04/2026 às 06:00.

Curioso como as coisas mudam. Antes, quando quase ninguém tinha telefone celular, a gente torcia para o telefone tocar e ser para nós. Um amigo, um parente, qualquer um. Lá em casa isso quase nunca acontecia, até porque nem telefone tinha.

Já faz uns anos, meu celular vive no silencioso e eu não suporto o barulho de toque. Com as mensagens aconteceu a mesma coisa. Os antigos torpedos que a gente adorava guardar viraram notificações que lemos e apagamos. Pelo menos eu.

E tem um detalhe que me intriga profundamente. Mesmo nesses tempos de uma sociedade cansada, à beira de um colapso nervoso coletivo, com a ansiedade à flor da pele, ainda existe gente com a frieza de mandar um “oi, querido” e desaparecer.

Nada mais.

Isso é da mesma família do “depois precisamos conversar”. Esse tipo de abordagem deveria ser, no mínimo, regulamentado e virar contravenção federal. Eu tenho certeza de que isso aflige mais gente neste país.

Tem dia que eu sinto falta do Orkut. Sei que tem gente que só conhece isso de ouvir falar, como se fosse um fóssil digital. Mas, para contextualizar, era uma rede social azulzinha lançada pelo Google em 2004 e que virou febre.

Éramos umas 36 milhões de pessoas que, muitas vezes sem celular, corriam para a lan house para olhar o scrapbook. Ali, os amigos deixavam recados públicos, ou um depô (depoimento) meio enigmático que podia ser uma declaração de amor, uma fofoca ou um começo clássico do tipo “o que dizer dessa pessoa que mal conheço mas já admiro pacas”.

Até hoje eu continuo sem saber responder essa pergunta. O que dizer sobre uma pessoa que não conheço... Mas o que mais me dá saudade do Orkut é outra coisa. Era a nossa liberdade de odiar.

O ódio, naquela época, era quase terapêutico. A gente odiava acordar cedo. Odiava jiló. Odiava quiabo. Criava comunidades para isso e compartilhava histórias. No fim das contas, nem era ódio de verdade. Ficava só no nome. Era quase um afeto invertido, coletivo, bem-humorado.

Hoje não.

O ódio evoluiu de um jeito meio assustador. Ficou pesado, agressivo, às vezes perverso. Perdeu a graça e ganhou dentes.

Outro dia recebi um “oi, querido. Tudo bem?”, no Instagram. E mais nada.

Na hora me deu uma vontade genuína de criar uma comunidade: “eu odeio quem manda ‘oi, querido’ e some.” Mas, pensando bem, talvez nem dê tempo. Do jeito que a gente anda vivendo, provavelmente o “oi, querido” já é o pacote completo. A pessoa deve ter sido chamada para resolver algum pepino, sequestrada por uma reunião ou interrompida por um robô que resolveu ligar para o telefone dela e não dizer absolutamente nada.

Aliás, vou criar a comunidade “Odeio robôs”. Anima entrar? 

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