Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Por que bebês negros morrem no Brasil?

Publicado em 16/06/2026 às 06:00.

Quando pensamos em Demografia, geralmente imaginamos números, gráficos e tabelas. Mas, por trás deles, estão pessoas: quem nasce, quem morre e quem permanece invisível nas estatísticas. É justamente sobre esses movimentos populacionais que a Demografia se debruça, buscando compreender seus impactos na organização da sociedade.

O Brasil possui uma população formada por mais de 55% de pessoas negras, considerando pretos e pardos, segundo o IBGE. Ainda assim, durante muito tempo, esse recorte racial esteve ausente de muitas análises demográficas.

“Oh! Como assim?”

Eu explico.

Em uma aula de pós-graduação na Fundação João Pinheiro, discutíamos um texto sobre mortalidade infantil no Brasil. A Taxa de Mortalidade Infantil (TMI) é calculada a partir da relação entre o número de óbitos de crianças menores de um ano e o total de nascidos vivos, multiplicada por mil.

Mas uma pergunta me inquietava: por que essas crianças morreram?

Diversos estudos demonstram que as condições de vida influenciam diretamente a mortalidade infantil. O acesso à saúde, à alimentação adequada, à moradia digna, ao saneamento básico e à infraestrutura urbana interfere nas chances de sobrevivência de uma criança.

Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), em 2022 cerca de 44% da população brasileira ainda não possuía acesso à coleta de esgoto. Milhões de pessoas seguem expostas a condições que favorecem doenças evitáveis e outros agravos à saúde.

Por isso, ao observar indicadores como a mortalidade infantil, não basta saber quantas crianças morreram. É preciso perguntar quem eram essas crianças e em quais condições viviam.

Nesse ponto, a Demografia revela algo que durante muito tempo permaneceu invisível.

Se a falta de saneamento, infraestrutura e serviços essenciais contribui para mortes evitáveis na infância, torna-se necessário perguntar quem está mais exposto a essas condições. No Brasil, a população negra está sobrerrepresentada em territórios marcados pela precariedade habitacional e pela insuficiência de políticas públicas. Dados do IBGE e do Instituto Trata Brasil mostram que pessoas pretas e pardas apresentam, historicamente, piores indicadores de acesso à coleta de esgoto, água tratada e infraestrutura urbana quando comparadas à população branca.

Em outras palavras, os grupos mais expostos às consequências da ausência de saneamento também possuem cor e endereço.

Quando determinados grupos permanecem historicamente mais vulneráveis à doença e à morte em razão das condições em que vivem, não estamos diante de uma simples desigualdade estatística. Trata-se de uma distribuição desigual do direito de viver.

Nesse contexto, o conceito de necropolítica, desenvolvido pelo filósofo Achille Mbembe, ajuda a compreender como determinadas populações são sistematicamente expostas a riscos evitáveis, enquanto outras recebem proteção, infraestrutura e oportunidades. A morte deixa de ser apenas um evento biológico e passa a revelar também escolhas políticas sobre quais vidas são protegidas e quais permanecem vulneráveis.

Foi então que compreendi que a Demografia não trata apenas de números. Ela também trata de ausências, silêncios e desigualdades.

Saber quantas pessoas nascem ou morrem continua sendo importante, mas talvez a pergunta mais urgente seja outra: quem nasce, quem morre e sob quais condições?

Durante muito tempo, essa sequer foi uma questão central em muitas pesquisas demográficas. A ausência de dados racializados não é neutra. Quando determinados fenômenos são medidos sem considerar raça, torna-se mais difícil identificar desigualdades, compreender suas causas e formular políticas públicas capazes de enfrentá-las.

Os números da mortalidade infantil são fundamentais, mas, isoladamente, pouco dizem sobre quem são os corpos mais atingidos e sobre as condições sociais que tornam algumas vidas mais vulneráveis do que outras.

Afinal, toda ausência estatística também conta uma história.

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