Quando pensamos em Demografia, geralmente imaginamos números, gráficos e tabelas. Mas, por trás deles, estão pessoas: quem nasce, quem morre e quem permanece invisível nas estatísticas. É justamente sobre esses movimentos populacionais que a Demografia se debruça, buscando compreender seus impactos na organização da sociedade.
O Brasil possui uma população formada por mais de 55% de pessoas negras, considerando pretos e pardos, segundo o IBGE. Ainda assim, durante muito tempo, esse recorte racial esteve ausente de muitas análises demográficas.
“Oh! Como assim?”
Eu explico.
Em uma aula de pós-graduação na Fundação João Pinheiro, discutíamos um texto sobre mortalidade infantil no Brasil. A Taxa de Mortalidade Infantil (TMI) é calculada a partir da relação entre o número de óbitos de crianças menores de um ano e o total de nascidos vivos, multiplicada por mil.
Mas uma pergunta me inquietava: por que essas crianças morreram?
Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), em 2022 cerca de 44% da população brasileira ainda não possuía acesso à coleta de esgoto. Milhões de pessoas seguem expostas a condições que favorecem doenças evitáveis e outros agravos à saúde.
Por isso, ao observar indicadores como a mortalidade infantil, não basta saber quantas crianças morreram. É preciso perguntar quem eram essas crianças e em quais condições viviam.
Nesse ponto, a Demografia revela algo que durante muito tempo permaneceu invisível.
Se a falta de saneamento, infraestrutura e serviços essenciais contribui para mortes evitáveis na infância, torna-se necessário perguntar quem está mais exposto a essas condições. No Brasil, a população negra está sobrerrepresentada em territórios marcados pela precariedade habitacional e pela insuficiência de políticas públicas. Dados do IBGE e do Instituto Trata Brasil mostram que pessoas pretas e pardas apresentam, historicamente, piores indicadores de acesso à coleta de esgoto, água tratada e infraestrutura urbana quando comparadas à população branca.
Em outras palavras, os grupos mais expostos às consequências da ausência de saneamento também possuem cor e endereço.
Nesse contexto, o conceito de necropolítica, desenvolvido pelo filósofo Achille Mbembe, ajuda a compreender como determinadas populações são sistematicamente expostas a riscos evitáveis, enquanto outras recebem proteção, infraestrutura e oportunidades. A morte deixa de ser apenas um evento biológico e passa a revelar também escolhas políticas sobre quais vidas são protegidas e quais permanecem vulneráveis.
Foi então que compreendi que a Demografia não trata apenas de números. Ela também trata de ausências, silêncios e desigualdades.
Saber quantas pessoas nascem ou morrem continua sendo importante, mas talvez a pergunta mais urgente seja outra: quem nasce, quem morre e sob quais condições?
Os números da mortalidade infantil são fundamentais, mas, isoladamente, pouco dizem sobre quem são os corpos mais atingidos e sobre as condições sociais que tornam algumas vidas mais vulneráveis do que outras.
Afinal, toda ausência estatística também conta uma história.