Estamos no final de julho. Fim das férias para algumas pessoas e às portas de um segundo semestre em que projetos continuarão sendo realizados, estudos serão retomados e novas metas ocuparão espaço nas nossas agendas. Por mais maravilhoso que seja pensar que já vencemos metade do ano, acho importante não romantizar uma coisa: para alguns de nós, chegar até aqui já foi uma longa caminhada ladeira acima.
Passado agosto — que, para muita gente, parece ter sessenta dias, chega setembro com as cores da primavera, mas também com a bandeira do Setembro Amarelo. Um mês importante, que nos convida a olhar para a saúde mental com mais atenção.
O curioso é que quase nunca percebemos que o copo não transborda de uma vez.
As pequenas gotas que fazem a água ultrapassar a borda, muitas vezes, começaram a cair lá em janeiro. Ou no ano passado. Ou há tanto tempo que já nem sabemos dizer quando começou a chover dentro da nossa cabeça.
É um problema no trabalho que nunca se resolveu.
Uma preocupação com alguém da família.
Uma perda.
Uma frustração.
Uma cobrança que fazemos de nós mesmos.
Um silêncio que vai ficando cada vez mais comprido.
E, quando percebemos, não estamos mais lidando apenas com a gota daquela semana. Estamos tentando sustentar um copo que vem enchendo há muito tempo.
Sempre procuro trazer, nesta coluna, opiniões intrusivas que tratem com bom humor situações do cotidiano. Gosto de rir das nossas pequenas tragédias domésticas, das manias, dos absurdos da vida adulta e das cenas que só fazem sentido depois que passam.
Mas acho que existe um momento em que o humor precisa dar um passo para o lado.
Não porque ele deixe de ser importante. Pelo contrário. Rir continua sendo uma das formas mais bonitas de resistir.
Só que há dias em que a pergunta mais importante não é "do que estamos rindo?", mas "como estamos?".
E essa é uma das perguntas mais difíceis de responder com honestidade.
Vivemos num tempo em que aprendemos a responder "tudo bem" quase automaticamente. Às vezes nem esperamos a pergunta terminar.
Muitas vezes não queremos admitir o cansaço por medo de parecer fraqueza.
Ou, às vezes, receamos preocupar quem amamos. Ou porque simplesmente nos acostumamos a seguir funcionando, mesmo quando já não estamos exatamente inteiros.
Tenho pensado muito nisso. Há dias em que olho para o horizonte e só consigo enxergar as nuvens. Elas estão lá. Não adianta fingir que não estão. O curioso é que, mesmo depois de uma linda realização acadêmico-profissional, foram elas que ocuparam a paisagem inteira e me impediram de desfrutar a vista. Como desver? Não sei. Mas fico me perguntando se não existe um risco silencioso nisso tudo: o de gastar o sol de hoje tentando me proteger de uma chuva que ainda nem começou. Será que crescer seja justamente isso: descobrir que não conseguimos desver as nuvens, mas ainda assim precisamos aprender a continuar olhando para o céu?
Setembro vai ser um mês importante. Mas a nossa saúde mental não mora no calendário.
Ela mora na segunda-feira comum.
Nesta terça-feira em que ninguém perguntou como estamos.
Na sexta-feira em que fingimos que estava tudo certo.
E mora, principalmente, na coragem de reconhecer que ninguém atravessa um ano inteiro sozinho.
Permitir-se descansar antes da exaustão.
Pedir ajuda antes do desespero.
Dizer "hoje eu não dou conta" antes que o corpo encontre uma maneira de dizer isso por nós. A diferença entre um copo cheio e um copo transbordando não é a última gota.
É o tempo que passamos fingindo que ele ainda cabia mais uma.
Bom, não vou fingir que não vejo nuvens pesadas. Por isso, hoje, eu não vou abrir a janela. Sinto muito.