Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Que isso, boba! Cê tá nova!

Publicado em 30/06/2026 às 07:30.

Assisti a um recorte de uma entrevista de Fernanda Montenegro comentando sobre envelhecimento. Imagino que, àquela época, ela estivesse com uns setenta e poucos anos. Em tom muito bem-humorado, que sinaliza de onde a filha, Fernanda Torres, possivelmente herdou os genes do humor, Fernanda Montenegro disse que é necessário aprender a aceitar e a conviver com os desafios da idade e sempre fazer o melhor que pudermos para conservar a alma jovem, cheia de energia, a despeito das mudanças no corpo, da aparência que já não é mais a mesma de trinta ou quarenta anos atrás.

Então decidi conversar com você sobre idade. Quantos anos você tem? Engraçado que, até certa idade, essa é uma pergunta que sai tão naturalmente da nossa boca. Especialmente quando somos crianças e adolescentes. Queremos saber quem já tem 12 anos, oficialmente um adolescente. Quem já tem 15 anos e se vai ter festa. Quem, no ensino médio, já fez 18 anos. Acho que este último caso tem muito a ver com o sonho de alguns de nós de tirar a carteira de motorista. Mas acredito que essa neura pare por volta dos 21. Falo por experiência. Depois dos 21, nunca mais tive preocupação ou interesse em perguntar a idade de alguém.

Lembro que, quando eu era criança, e muito falador, minha mãe conversava com uma moça. Ela perguntou quantos anos minha mãe tinha. Antes que minha mãe abrisse a boca para responder, eu já disparei: 25 anos. O ardido do beliscão que levei demorou outros 25 anos para passar.

Engraçado é que, quando perguntamos a idade de alguém, o que realmente queremos saber?

Para uma criança fazendo birra no supermercado, chorando alto porque quer um pacote de biscoitos, a pergunta pode servir para dizer: "olha, você já está bem grandinho para isso." Há algo de censura.

Para a adolescente de 16 anos que tentou manobrar o carro da mãe na garagem e acabou derrubando uma pilastra, a pergunta pode surgir com outro tom: "olha, você ainda não tinha idade para dirigir." Há algo de permissão.

Para a amiga que me ligou e me chamou para ir a um after na República Dominicana que só começava a ficar boa e a encher às três da manhã, a minha autopergunta foi inevitável: "Uai, Renata! Você acha que eu tenho quantos anos?"

Pensar em como nossa idade pode refletir no exterior, no interior e até no que podemos ou não devemos fazer é um assunto interessante. Ninguém quer ficar caquético, para trás, fora do jogo, ser considerado velho no sentido mais pejorativo da palavra, e não naquele outro sentido do amadurecimento que se espera que desenvolvamos, aquele que nos ajuda a não nos jogar no chão nem espernear quando ouvimos um "não" ou quando as coisas simplesmente não saem como planejamos.

Sou professor de adolescentes. Meus alunos têm entre 15 e 19 anos e, a cada ano, faço o meu melhor para acompanhar as mudanças da sociedade, das linguagens, das tecnologias e das maneiras como lidamos com a vida. Acho que pode ser por isso mesmo que eu pense tanto na passagem do tempo. Lido com diferentes gerações há quase 15 anos e nunca canso de me surpreender com os novos desafios e com tudo o que aprendo ao ensiná-los.

Fernanda Montenegro disse que uma das piores coisas da idade é ter dificuldade para enxergar e precisar de óculos para tudo, inclusive para se enxergar. E que, para não ver a passagem do tempo, seu conselho seria não usar óculos para não prestar muita atenção nisso.

Vou precisar, com todo respeito, discordar da Fernandona, como os amigos a diferenciam da filha. O bom da idade é que, finalmente, aprendemos a nos enxergar com lentes mais verdadeiras. Com sorte, também menos embaçadas do que eram há alguns anos. Enxergar-se de verdade, reconhecer quem somos, pode ser um dos maiores presentes que o tempo nos dá.

Será, então, por isso que, depois de certa idade, a gente pare de perguntar quantos anos os outros têm? Não porque a resposta deixe de importar, mas porque finalmente entendemos que o calendário nem sempre acompanha a alma?

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