Tenho um colega de trabalho que é também um amigo. Ele se dedica ao ensino da língua portuguesa, tanto na graduação quanto no ensino médio. Amante de boa música, ouve os Beatles e, talvez inspirado por eles, escolheu seu corte de cabelo de fios pretos e longos que fazem rapel atrás das orelhas, dentre eles, alguns grisalhos que se revelam marotamente anunciando a maturidade, a sensibilidade e o olhar terno que há anos o acompanham.
Lentz leu meu primeiro livro de crônicas, O Homem de Calcinha, se divertiu, riu e me convidou para um bate-papo no clube do livro que coordena. Ouvi dele algo que transformou a forma como vejo a escrita: “Após ler seu livro, Seu João, fiquei pensando: quem tem o direito de escrever?”. Confesso que, de cara, não entendi. Como assim, o direito de escrever? Se nos fizeram apreender essa língua estrangeira à natureza de nosso trópico e que utilizamos para nos comunicar, não teríamos todos nós o direito de escrever? Acredito que a resposta é sim. Então mudaria a pergunta, quem tem direito de ser lido?
Porque ser lido são outros quinhentos. Quem tem direito a ter sua alma desnudada e seus segredos descobertos nos interstícios de um poema, seja épico, lírico, dramático ou até um haicai? Quem pode fazer cena em uma crônica ou respirar mais profundamente e compartilhar um conto com outros personagens? Nem vou juntar tudo porque pode virar uma novela. Se ao menos fosse revelado, no final dela, quem bate o martelo e define quem vira escritor, escritora ou, quem sabe, escritorix.
Uma aluna me perguntou sobre meu processo criativo. Confesso que me senti pomposo com a pergunta, mas não sei se a resposta satisfez o desejo de ouvir algo mágico, quase alquímico, sobre transformar sujeito, verbo e predicado em arte. Eu disse apenas que escrevo por mim, para organizar minha mente em alta voltagem, descansar os meus olhos que lacrimejam com filmes de Natal na Netflix e os meus dentes que roem unhas em documentários sobre o meio ambiente...
Ouvi que todos escrevem para ser lidos. Será? Às vezes escrevo para não esquecer. Noutras, para não enlouquecer. Nem sempre funciona. Mas quando enlouqueço, jogo tudo pro papel e depois pro mundo. Numa dessas, publiquei dois homens: um de calcinha e outro grávido. E aqui chego ao fim da minha página sem responder à pergunta de Lentz.
Todos deveriam reivindicar o direito de escrever, pois enquanto houver alguém disposto a juntar palavras, ideias, textos, a pergunta seguirá em aberto; e é isso que mantém a escrita viva. Hoje deixo esta página inteira respirar, apenas para mostrar que, às vezes, o maior direito é deixar a dúvida existir. Refaço a pergunta do Lentz, transformando-a para você: quem tem o direito de escolher quem tem direito a escrever?