Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Rapafofa?

Publicado em 07/04/2026 às 06:00.

Uma das coisas que eu mais gosto na vida é viajar. Sempre que posso, conheço uma cidade nova e quase sempre volto com alguma história curiosa na bagagem. O curioso é que essas viagens acabam me fazendo refletir sobre como a vida em Minas Gerais é maravilhosa.

Fiquei duas semanas em São Paulo. Cidade enorme, gente apressada, prédio para todo lado e umas ideias que, sinceramente, parecem ter surgido depois de uma aposta perdida. Foi lá que comecei a perceber que o mundo anda estranho.

Entrei num restaurante dentro de um mercado famoso e o rapaz, muito educado, me perguntou se eu queria experimentar a feijoada da casa. Até aí, tudo bem. Mas logo em seguida ele completou:

Feijoada vegana.

Na hora achei que era pegadinha.

Perguntei o que vinha. Sem bacon, sem linguiça, sem carne, sem nada. Basicamente feijão preto e legumes.

Fiquei tentando entender. É feijoada ou sopa de feijão? Uai. Propaganda enganosa é crime. Chega uma hora em que a gente precisa dar o nome certo para as coisas.

Gente, vamos com calma também.

Só poderia ser coisa de paulista mesmo. Isso é um flagrante ataque à culinária mineira. Aliás, você já reparou que praticamente não existe restaurante de comida paulista? Encontramos restaurantes baianos, paraibanos, nordestinos, capixabas, manauaras, paraenses, mineiros… mas paulistas?

Por que será?

O tal cuscuz paulista parece um experimento científico que deu errado. O cachorro-quente tem quatro salsichas, purê, milho, ervilha, frango, cenoura, batata palha, azeitona… passo mal de azia só de imaginar.

Voltei para BH um pouco gastro-assustado.

Aqui, entrei numa lojinha que parece um armazém dos anos 80. Daqueles com balança de prato e uma régua com uma bola de ferro deslizante para acertar o peso. Coisa que hoje a gente só vê em filme antigo ou novela das seis.

Adoro essa loja porque lá tem de tudo. Inclusive coisas que eu nem sabia que seriam possíveis.

Foi quando vi um pacote de um doce que amo.

Peguei.

Apertei a embalagem artesanal de plástico-filme, fechada com um laço de chita.

Cheirei. Uai! Aroma de melaço de cana?

Confesso que, pela cor, achei primeiro que fosse uma bananada, que adoro. Mas quando li o rótulo, senti um certo deslocamento existencial. No rótulo estava escrito rapadura. 

Peguei, virei, olhei contra a luz, apertei de novo e fiz a pergunta inevitável.

Moça, por que essa rapadura é mole e preta? Molhou?

Respondeu apenas que era outro fornecedor.

Mas como assim?

Rapadura não tinha que ser marrom e dura? Como assim mudaram a dureza dela?

A moça deu de ombros. Claramente eu era a primeira pessoa a problematizar a densidade da rapadura naquele estabelecimento.

Historicamente, as coisas mudam e isso pode até ser bom para algumas pessoas. Tem o café sem cafeína. O leite sem lactose, que na verdade tem lactose sim, mas também tem lactase, a enzima que quebra o açúcar do leite para facilitar a digestão. Tem também chocolate sem cacau. Depois disso, confesso que a rapadura que não é dura já não parece tão absurda.

Mas mesmo assim fiquei pensativo.

Seria agora a Rapafofa? Rapamole?

Rapafofa pega mal e não tem como ser levada a sério, principalmente considerando o tradicional e conservador mercado mineiro. E rapamole é dureza.

Não literal, obviamente. Você já entendeu o meu ponto.

Comprei mesmo assim. Queria ter propriedade para falar mal depois, caso não fosse boa. Mas me surpreendi, pois ela é maravilhosa, a gente consegue comer de colher! Inclusive coloquei um pedacinho dela na água de fazer café e descobri que ela saboriza de maneira deliciosa e ressalta o sabor.

Apaixonado, fui pesquisar o que poderia ter acontecido nessa receita. Mas descobri que, na verdade, nada deu errado. Ela apenas foi retirada antes do ponto tradicional para ficar mais macia.

Ou seja, não era defeito, era técnica e precisão cronológica.

Quem será que tem essas ideias de ficar mudando as coisas? Fui olhar o rótulo para ver de que fazenda vinha aquela inovação... A rapadura é produzida em Extrema, Minas Gerais, bem na divisa com... São Paulo.

Sabia!

Influência paulistana, mas com jeitinho mineiro.

Bom, dessa vez deu certo. Eu amei.

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