Foi essa a pergunta que ricocheteou pela sala diversas vezes nas últimas semanas, às quartas-feiras, durante horas, em uma disciplina que estou cursando para o meu doutorado. A disciplina se organiza em torno do eixo Direito e Literatura e reúne, numa quarta-feira após o almoço, dez pessoas que se encontram em uma salinha retangular no alto do 12º andar da Faculdade de Direito da UFMG e debatem sobre tudo: Grécia antiga, odisseias, ilíadas, quimeras... o tempo, o espaço, o tudo, o nada.
Não raro, somos interpelados pelo Galuppo para consultarmos nossas bússolas e checarmos onde perdemos a sinalização ou onde era mesmo para virar, tal qual um grupo de amigos em uma viagem de carro que, de repente, percebe que o destino ao qual chegou não era o esperado. Ou como alguém que abre um armário na cozinha em busca de um utensílio e acaba encontrando aquele abridor de latas que procurava.
Esse “aqui”, ao qual ele se refere, é sempre algum ponto tão distante de onde vemos os textos da aula acenarem para nós, como se os tivéssemos deixado para trás, sentados em um barco com Homero ou pendurados em uma árvore aos pés de Antígona.
Numa dessas, conversávamos sobre o que era literatura. Questionamos se um manual de montagem de um móvel da Tok&Stok seria considerado literatura. Mas e se ele estiver inserido em uma obra de contos de César Aira, no livro “As três datas”, no qual o texto é um conjunto de instruções para montar obras ou instalações de arte em uma Bienal? Um texto que parece um guia técnico e reflexão sobre arte contemporânea. Seria então literatura? Se sim, o que não seria?
Encasquetados com isso, debatemos também a fala da professora Aurora Fornoni Bernardini ao afirmar, em entrevista à Folha de S. Paulo em 2025, que o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, seria interessante, mas não seria literatura por priorizar o conteúdo em detrimento da forma estética.
Eu não me lembro de ter escolhido um livro pela forma ou pelas escolas estilísticas que ele tenha usado. Não que elas não importem. Importam. Para certos críticos, importam muito. Mas, para leitores com lentes mais leves, às vezes queremos um bom conteúdo: fadas, dragões, bruxinhos em uma escola de magia, estrelas devoradoras de sóis ou a história de uma catadora, preta e favelada, escancarando como a desigualdade social atravessa a sua vida.
Para mim, optar pela forma faz com que o tesão literário murche como um balão no fim da festa. Cadê o gozo?
Quem sabe o problema não seja o livro. Quem sabe seja o que a gente decide fazer com ele. Talvez a literatura nem seja qualidade essencial do texto, mas o modo como decidimos lê-lo. Uai, né não?
Literatura pode ser menos uma coisa e mais um tipo de comportamento. O que explica o fato de dez pesquisadores ficarem sentados durante quatro horas discutindo um conceito indefinível e ainda saírem com mais dúvidas do que certezas.
Talvez porque literatura seja justamente esse “aqui”. Esse espaço quase subjetivo em que nos é permitido nos perdermos da rigidez da forma e do método, duvidar com elegância e procurar sentido mesmo quando ele não quer ser encontrado. O que talvez explique por que, no fim das contas, nunca sabemos exatamente onde estamos quando entramos no caminho da literatura, mas temos uma estranha certeza de que, de algum modo, é exatamente por ali que a gente gostaria de passar.