Hoje me lembrei de um dia em que conversava com um homem na rodoviária de Belo Horizonte. Aguardávamos o ônibus para Ouro Preto. Animado, ele me contava o que já tinha conhecido em BH e como estava curioso para visitar as cidades históricas de Minas. “Eu tavo no Mercado Central ontem. Achei muito lindo...”
Sociolinguisticamente, parei e pensei: nós usamos a língua; não é a língua que nos usa. Tavo é perfeitamente normal e aceitável. Primeiro porque reduções em português acontecem o tempo todo, principalmente com o verbo estar: tô, tá, tava, tive… e agora, tavo. Confesso que era novidade para mim, mas fez sentido na hora: redução + flexão para o masculino. Funcionou.
Esses recursos linguísticos nem são exclusividade nossa. Em inglês, isso acontece o tempo inteiro e é super comum, ain’t it? E não só em música ou filme. Claro que nesses contextos dá para perceber melhor, mas esses atalhos linguísticos, prefiro chamar de atalhos a erros — são super comuns. Se a intenção comunicativa foi satisfeita e a mensagem chegou limpinha ao ouvido do outro, pronto: comunicamos. Porque, no fim das contas, a língua é antes de tudo uso, afeto, convivência, não uma ferramenta de opressão normativa. Assim, pode tudo. Pelo menos oralmente, e desde que não estejamos numa banca de concurso, seleção de trabalho ou algum ambiente em que os pingos nos is, as vírgulas e os plural precisa ser dito.
Tem gente que se dói demais quando ouve uma variante linguística usada de maneira diferente da gramática normativa. Eu já acho um arraso quando alguém para conversar, dar opinião, pôr a cara a tapa. Em tempos de inteligência artificial sendo usada até como terapeuta, até pequenas coisas que sempre foram comuns entre seres humanos, como o diálogo, precisam ser comemoradas.
Não tenho muitas memórias claras do tempo em que vendia cachorro-quente com minha mãe nas ruas, mas desse episódio eu me lembro, e também da moça que pediu um galfo novo porque o dela tinha quebrado enquanto comia um macarrão na chapa. Bons tempos. Minha mãe fazia o lanche, entregava e, se fosse necessário, dava um garfinho novinho para a cliente, e jamais se preocupava com outra coisa além de servir bem, oferecer algo gostoso, não importava quem fossem seus clientes: pessoas engravatadas ou de uniforme. Tratava todo mundo igualmente bem.
Para mim, falar bonito ou certo é se comunicar de forma que não fiquem dúvidas sobre o que se diz e qual é a minha intenção enunciativa. Tal qual nossas roupas, cada registro tem sua ocasião especial: ora o uniforme, ora a roupa de festa, seja junina ou de formatura. Saber transitar é importante, e não julgar a roupa do coleguinha também faz parte do pacote. Era isso que eu queria compartilhar com você. Inclusive, eu tavo pá escrever este texto já tinha mó tempão.