Alerta para possibilidade de pancadas de chuva intensa, com risco de enxurradas, alagamentos e granizo.
Se o tempo estiver firme e ensolarado, você talvez ache essa frase, no mínimo, irreal.
Calma.
Não é um alerta da Defesa Civil.
É apenas uma constatação pessoal.
Nos últimos tempos, o que mais tenho ouvido são versões dessa frase. Não exatamente com essas palavras, *per se*, mas com o mesmo significado. Uma chuva torrencial de cansaço. Desânimo. Pálpebras tremendo. Vontade de chorar. Vontade de fugir.
Às vezes, fugir chorando.
O esgotamento parece ter se espalhado como uma pandemia silenciosa.
Semana passada eu estava na Festa Latina, na Praça da Assembleia, em Belo Horizonte. Sentei num banco para comer um espetinho e descansar um pouco da multidão. Olhávamos todos na mesma direção quando uma mulher passou com uma menina de uns quatro ou cinco anos. Não sei bem. Sou péssimo para calcular idade de criança.
Mas era claramente uma idade feita para correr, pular no pula-pula e fazer bagunça.
Ouvi a mulher dizer, com voz cansada:
Vai lá brincar, Júlia.
Nada me preparou para a resposta:
Ah não. Tô cansada. Vamos sentar.
Naquele momento pensei que o mundo realmente mudou.
Já ouvi falar de crianças com nomes de gente idosa. Leoncio. Amâncio. Leonor. Aquelas crianças que já nascem com 65 anos. Mas Júlia?
Cansada?
Num sábado à tarde?
Diante de um pula-pula?
Quase cheguei a arredar pro lado para dar espaço para aquela pequena veterana da vida.
Mas eu a entendo. Eu mesmo só estava naquela festa latina por causa da comida. Nem era pelo reggaeton nem pela salsa. Era pura estratégia doméstica. Não queria fazer almoço.
Confesso.
Todo mundo já ouviu falar de estresse. Curioso é que em inglês “to stress” pode significar enfatizar, destacar alguma coisa. Fiquei pensando se, quando estamos estressados, não estamos exatamente fazendo isso: destacando mentalmente tudo aquilo que está nos aborrecendo.
De tanto esquentar a cabeça, a gente acaba se queimando.
Talvez daí venha o tal burnout.
Inclusive, estresse e burnout não são a mesma coisa. O estresse é uma reação natural do corpo diante de desafios. Já o burnout é quando o corpo e a mente simplesmente dizem chega. É exaustão física, emocional e mental depois de muito tempo sob pressão atmosférica.
E parece que estamos chegando nesse ponto como sociedade.
Dados mostram que o Brasil tem índices altíssimos de estresse no trabalho e números preocupantes de afastamentos por saúde mental. Mas às vezes nem precisamos das estatísticas.
Basta observar.
A Júlia cansada diante do pula-pula já é um dado sociológico.
Observo isso no Cefet, na minha família, na pracinha e por todo lado. Outro dia uma colega me mandou um áudio longo pedindo desculpas por não conseguir responder mensagens da semana anterior. Quando finalmente consegui ouvir, uma semana depois, percebi que eu também só estava conseguindo responder porque minha própria tempestade tinha dado uma trégua.
Parece que todo mundo anda esperando uma estiagem emocional.
Tá chovendo pra todo lado, né?
Talvez esteja faltando mais do que férias. Talvez esteja faltando silêncio. Tempo. Conversa sem pressa. Menos cobrança. Mais banco de praça.
Talvez esteja faltando simplesmente poder dizer:
Hoje não.
Hoje eu só quero ficar sentada.
Igual a Julia. Quem dera.