Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Toalha felpuda

Publicado em 06/10/2026 às 06:00.

Quero compartilhar uma experiência que vivi quando fui fazer meu primeiro bolo. Inspirado pela Juliana Paes na novela A Dona do Pedaço, resolvi fazer um bolo toalha felpuda.

Eu adorava a personagem e tinha certeza de que daria tudo certo. Afinal, já tinha visto minha mãe fazendo isso um milhão de vezes. Fui à loja de produtos naturais ao lado da casa onde morava.

“Bom dia, Dona Maria Vitória. Quero fazer um bolo bem gostoso.”

“Coisa boa! De quê?”

“Hmmm, uma versão de toalha felpuda com amêndoas.”

“Coco e amêndoas?”

“Sim fica uma delícia!"

Dona Maria Vitória ficou me olhando por alguns segundos, mas não disse nada.

Pedi 250g de farinhas: de trigo, de farinha de amêndoas, de farinha de aveia, farinha de coco, 50g de amêndoas laminadas, 50g de aveia, 50g de coco ralado, 50g de nozes, 1 garrafinha de leite de coco (da marca DuCoco, pois é a melhor), meia dúzia de ovos caipiras, 1 pote de manteiga sem sal e uma caixa de leite integral.

Cheguei em casa me sentindo feliz, confiante e pronto para fazer um bolo delicioso e mandar um pedaço lá pra casa de mãe.

Mãos à obra. Quebrei os ovos, separei as claras e adicionei as gemas à batedeira.

Acrescentei manteiga sem sal QB (quanto basta, ou seja, uma colherada que tinha certeza de que minha mãe colocaria). Depois pus o açúcar. Quantidade? A que achei que meu coração mandava naquele momento.

Misturei em velocidade baixa. Não adianta ter pressa na cozinha. Então acrescentei as 250 gramas das farinhas pouco a pouco.

Sim, todas. Uma a uma.

A de trigo, a de amêndoas, a de aveia, a de coco. Mas não se esqueça de peneirar antes.

Faz toda a diferença.

Abri a caixa de leite e fui despejando vagarosamente na batedeira, observando atentamente esperando aquele ponto homogêneo e cremoso das massas de bolo da minha mãe. Com essa imagem em mente, coloquei um copo de leite, dois, três, mas a massa ainda parecia resistente e com bolotas de farinha que se recusavam a se dissolver. Quando adicionei o quinto copo, o leite acabou. Ainda não estava cremosa como a massa da minha mãe, mas parecia com a massa do meu pai: de concreto usado na construção civil. Lembrei das claras! Só poderia ser isso.

Rapidamente, para salvar o meu bolo, coloquei as claras por cima de tudo e deixei bater até a batedeira soltar fumaça. A intenção, ao separá-las, era batê-las em neve e jogar por cima, igual à minha mãe fazia, mas, como a batedeira estava ocupada com a massa, eu teria que bater à mão mesmo. Mas não tenho muque para isso.

Acho que, para conseguir isso, a pessoa tem que ser mãe. Deve ser algo biológico, uma força que só os braços das mães têm.

Sem pestanejar (obs.: acho que é a primeira vez que uso “pestanejar” em um texto), assisti enquanto as claras desciam pelas frestas da minha massa de reboco. Não me sentia seguro, mas confiei no processo, pois deu um “glow” na massa quando pus as claras. Sorri e, enquanto batia, fui colocando as coisas na pia, jogando embalagens no lixo. Nessa hora, vi a manteiga e tive a ideia de colocar um pouco mais para ajudar. Pesei duas colheres de sopa e adicionei. Acho importante pesar as coisas, sabe. Pra poder dar certo. Mas acabou que depois de pesar sobrou apenas um pouquinho então raspei tudo para não ter desperdício. A gente tem que ser muito consciente ao cozinhar.

Não untei o tabuleiro porque a manteiga tinha acabado, mas polvilhei farinha assim mesmo. Não haveria problema porque a forma era antiaderente. A moça da loja “Pague Mais Barato”, lá do Centro, havia garantido a qualidade dela.

“Eu tenho uma dessa. Asso tudo nela. Não gruda na-da! Se quiser passar um pouquinho de óleo ou manteiga, a massa sai com um sopro, mas não precisa...”

Diante daquela propaganda e mesmo achando curioso uma forma antiaderente ser de alumínio, comprei pois o preço estava ótimo! R$14,90. Me lembrei dessa compra enquanto estreava a forma novinha guardada há meses no armário.

Despejei a massa cuidadosamente. Polvilhei o coco ralado por cima.

Fechei a porta do forno, respirei fundo e liguei.

Agora era só esperar...

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