A bomba é atômica. O barulho ensurdecedor.
Pouco a pouco, o nariz deixa de fungar, escorrer.
Pouco a pouco, a gente vai reequilibrando os pés bambos.
Pouco a pouco, a água com açúcar se torna desnecessária.
Pouco a pouco, os olhos vão desavermelhando.
Pouco a pouco, o descompasso da respiração vai se atenuando.
Pouco a pouco, o papel higiênico amassado vai sendo recolhido do chão.
Pouco a pouco, surgem frestas nas barreiras invisíveis que se ergueram.
Pouco a pouco, a gente vai lavando a lama que invadiu a nossa casa.
Pouco a pouco, a música passa a infiltrar o silêncio.
Pouco a pouco, o caos vai se reorganizando.
Pouco a pouco, a neblina pesada e fria vai sumindo.
Pouco a pouco, as nuvens carregadas vão se dissipando.
Pouco a pouco, conseguimos voltar a enxergar um ao outro.
Pouco a pouco, nossos olhos se arriscam a trocar olhares fragilizados.
Pouco a pouco, as palavras vão ecoando entre as cordilheiras erguidas.
Pouco a pouco: Onde? Como? Por quê? Quando? Quem? Pra quê?
Pouco a pouco: Aqui. Rapidamente. Não sei. Ontem. Não conheço. Por medo.
Pouco a pouco: Desculpe. Não tive a intenção. Apenas. Que saco! Perdão.
Pouco a pouco, o tempo se desanuvia sobre o copo d’água.
Pouco a pouco, os escombros são abandonados.
Pouco a pouco, a gente cava um novo tubulão.
Pouco a pouco, um tijolo é assentado.
Pouco a pouco, uma coluna se ergue.
Pouco a pouco, uma parede nova.
Pouco a pouco, as telhas novas se encaixam.
Pouco a pouco, a gente arruma a cerca.
Pouco a pouco, a gente decora um quarto de casal.
Pouco a pouco, nós dois entendemos que somos dois. Não um.
E isso é muito importante.
Pouco a pouco, descobrimos que não temos donos.
Pouco a pouco, entendemos que somos companheiros de viagem.
Pouco a pouco, nos vemos responsáveis por decidir juntos o destino.
Seja na estrada, no ar, na rua, na floresta, no mar...
Pouco a pouco, entendemos que a vida é um oásis, cercado por um deserto.
E nesse deserto, pouco a pouco, a poeira baixa. Sempre baixa.