Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Um presente pra você

Publicado em 05/05/2026 às 06:00.

Pense em alguém que você conheça. Qualquer pessoa.

Pause.

Conte até cinco.

Responda para si mesmo: em quem você pensou? Por que pensou nessa pessoa?

Conte até cinco novamente.

Foi por parentesco? Amizade? Relacionamento? O que faz você se lembrar dela?

Muitas perguntas, eu sei. Mas talvez mais interessante ainda sejam as respostas. Porque as maneiras pelas quais alguém se torna memorável para nós são inúmeras.

E você, como gosta de ser lembrado?

Ou melhor: o que você faz, conscientemente ou não, para que as pessoas se lembrem de você?

Vou contar duas coisas que mais gosto de fazer.

A primeira é escrever.

Comecei ainda criança. Adorava escrever cartinhas.

Minhas primeiras destinatárias foram minhas professoras, Dona Terezinha Toledo e Dona Mara, duas das pessoas mais maravilhosas que conheci na Escola Municipal Maria das Neves, em Belo Horizonte.

Mais tarde, já no início dos anos 2000, vieram as agendas. A gente escrevia uns para os outros. Eu adorava pegar a agenda das colegas, ler o que já tinham escrito e deixar ali minha mensagem também.

Era uma espécie de precursor afetivo do Orkut e do Facebook, ambos em paz eterna.

Depois vieram os cartões-postais.

Já escrevi e enviei inúmeros pelo Brasil e pelo mundo afora. Hoje ostento uma coleção com mais de 600 cartões de mais de 120 países.

Atualmente, mando menos do que gostaria, confesso.

Recentemente, uma amiga de Natal recebeu um cartão-postal de Belo Horizonte junto com umas latas de doce de leite. Disse ter ficado emocionada com o gesto analógico e inesperado, por ela.

Amo isso. De verdade. Surpreender.

Presentear me faz bem. E também é uma forma de permanecer.

Seja pelas cartas, pelos textos, pelas crônicas que alguém lê, ri e depois me conta que ficaram na cabeça.

Outra forma de presentear que adoro é oferecer coisas abstratas.

Música, por exemplo.

Nada melhor do que ouvir algo bonito, animado, poderoso, e pensar imediatamente em alguém.

Foi o caso de Ma Chérie, da Naïka. Ouvi e mandei na hora para minha amiga Renata de Marins, uma espécie de Dora Aventureira missionária que cruza o mundo e ama a cultura latino-caribenha.

Isso tem uns três anos.

No mês passado, recebi um vídeo dela em um show da Naïka, em Miami, feliz da vida, me agradecendo por ter apresentado a artista.

Achei bonito demais.

Também já ganhei presentes que jamais me deixarão esquecer quem os deu.

Natália me presenteou a Cruela, que já veio grávida da Alcione e do Tim Maia, amores da minha vida.

Marcilene me presenteou com o Parceiro, o gato mais lindo do mundo.

Angela me presenteou uma João Pessoa pela qual sou absolutamente apaixonado.

Liniker me presenteou o Zé. “Ai o Zé! Não! Vou deixar pra lá...”

Não tem como não ser grato pelas memórias que certas pessoas nos entregam.

Tenho um colega, o professor Gallupo, da Faculdade de Direito da UFMG, que talvez seja o maior presenteador que conheci até hoje.

Ele dá viagens de presente. Sim! De uma riqueza!

Bastam cinco minutos de conversa e ele já abre a bagagem de experiências, oferecendo livros, leituras, ideias, caminhos, vontades de aprender e de conhecer o mundo.

Neste semestre, estando mais próximo, testemunhei vários desses presentes e até anotei títulos que ele mencionou “pro zoto”.

Não me pareceram recomendações de leitura. Mas convites para passeios literários.

No fim, talvez seja isso que faz alguém permanecer na memória da gente.

Tem presente concreto.

Tem presente abstrato.

No fim, talvez a memória funcione assim também. A gente pensa que guarda pessoas, quando na verdade guarda aquilo que elas nos compartilharam. Um bilhete, uma música, um pet, uma planta, uma conversa, uma coragem emprestada, um afeto, uma vontade nova de ler um livro ou o mundo ao nosso redor. Por isso volto ao começo desta conversa. Pense em uma pessoa de novo. Feche os olhos. Se ela apareceu tão rápido na sua cabeça, é porque ainda mora aí dentro, pois ninguém sai ileso de ninguém. 

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