Eu já compartilhei com vocês que eu adoro ouvir música? Lá em casa, o som está sempre em alto e bom som. Vou do A de axé ao Z de zumba com a tranquilidade de quem sabe muito bem que a vida é complexa demais para a gente ficar naquela palhaçada de “só escuto rock” ou “odeio pagode”, entre outras cafonices que a gente ouvia e falava lá pelos idos dos anos 90.
Eu mesmo me lembro de ter ouvido, muitas vezes, pessoas recriminando um estilo musical como se isso lhes concedesse algum tipo de superioridade moral, intelectual ou estética. Como se gostar de um ritmo fosse certificado de caráter. Era curioso e um pouco triste. Mas enfim.
Dito isso, estava eu em casa, dando aquela geral básica, quando de repente começou a tocar uma música colombiana de uma cantora que, até poucos meses atrás, eu não acompanhava muito, apesar de já ter ouvido o nome dela aqui e ali. Karol G. A música se chama Una noche en Medellín, é super animada, dançante e, na verdade, nem era dela originalmente. A canção é do cantor chileno Cris MJ, que estourou primeiro nas plataformas digitais antes de ganhar essa versão mais pop e global.
Quando a batida começou, não levou nem dois minutos e meu corpo já estava respondendo sozinho ao que o ritmo pedia. É automático. É físico. É impossível ficar parado. Cara, que música boa.
E foi aí que, sem nenhum aviso prévio, minha cabeça fez aquele salto esquisito que só a memória afetiva sabe dar. Automaticamente me lembrei de uma música de um ritmo completamente diferente. Um tango. Dramático, pesado, denso. “Balada para mi muerte”, do Astor Piazzolla, com letra do Horacio Ferrer, dois sujeitos que resolveram pegar o tango e virar ele do avesso.
Eu adorava essa música. Adorava mesmo. Aquela letra soturna que, para mim, sempre soou como poesia pura. “Moriré en Buenos Aires, será de madrugada, que es la hora en que mueren los que saben vivir…”. Aquela ideia de morrer apaixonado pela cidade, pela vida, pelo excesso. E mais adiante, quando ele fala da “mufa perfumada” e daquele verso que nunca pôde dizer. No fundo, basicamente, é sobre amar demais e não saber onde enfiar esse amor todo.
Se alguém me dissesse, anos atrás, que um dia eu sairia desse clima denso, existencial, portenho, para estar em casa dançando ao som de “bellaqueo y fumeteo, en RD esto es teteo, Pa’ PR en el jangueo, y en Colombia esto es perreo”, eu provavelmente faria cara de julgamento. Hoje, eu só fecho os olhos e curto muito. Porque a gente muda. Ainda bem que muda.
Entre o tango de quem queria morrer em Buenos Aires e a batida que celebra uma noite em Medellín, tem uma coisa muito bonita acontecendo: a vida. A vida que segue e, justamente por isso, faz o corpo pedir outras coisas. O mundo gira. E a música, generosa, dá conta de embalar tudo isso, se a gente deixar.
No fim das contas, talvez maturidade seja isso. Parar de usar gosto musical como identidade fixa e começar a usá-lo como trilha sonora do que a gente está vivendo agora. Se hoje é Karol G, ótimo. Se amanhã for Piazzolla de novo, melhor ainda. O importante é não silenciar o som. Nem o de fora, nem o de dentro.
E talvez seja isso que a música nos ensine com mais delicadeza: não há incoerência em mudar, há saúde. A gente cresce, tropeça, atravessa cidades invisíveis, troca de pele, de ritmo e de desejo. Algumas canções ficam, outras passam, como tudo que é vivo. O erro nunca foi dançar fora do compasso, mas insistir em permanecer imóvel. Que a gente se permita ouvir o que o momento pede, sem culpa, sem rótulo, sem explicação. Porque no fundo, viver bem é isso: ajustar o volume da vida e seguir, de coração aberto. E você, tem ouvido o que de bom?