Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Vida útil

Publicado em 03/02/2026 às 07:44.

Meu telefone quebrou. Depois de nove anos com o mesmo aparelho. Sim. Pode acreditar. Ainda mais em tempos em que as coisas não são feitas para durar. Um telefone sobreviver quase uma década soa como exagero ou mentira.

Lembro exatamente do dia em que resolvi sair da Sony para a Apple. Eu tinha um aparelho bom. Ou melhor, bom para quem eu era naquele momento. Ele atendia às minhas necessidades com dignidade. Dava para ouvir música, as fotos não eram grandes coisas, mas eu também não era um fotógrafo exigente, desses que precisam de tecnologia de ponta para justificar o próprio olhar.

Um dia, na academia, vi um aparelho novo. Fiquei enlouquecido. Distraído como sou, me desequilibrei na esteira e caí. Ali eu soube. Talvez não naquele dia, mas em algum momento, eu acabaria trocando meu Sony Xperia Premium, então com sete anos de idade, por aquele iPhone. Dito e feito. Um ano depois, o dinheiro apareceu. Me despedi do Sony como se ele nunca tivesse sido o hype do momento.

Quase dez anos depois, com o mesmo iPhone, resisti aos apelos do mercado, às modas que entram e saem, às novas necessidades inventadas por uma sociedade líquida, dinâmica, cambiante, fast fashion, drive-thru. Permaneci fiel. Leal.
Companheiro de vacas magras e gordas.
Sobreviveu a pandemias, shows, viagens, eventos, encontros e desencontros.

Apesar dos arranhões, das marcas de uso, da bateria com duração justa e de outras pequenas limitações que já faziam parte da nossa rotina, ele funcionava perfeitamente. Até cair. Um tombo feio. Daqueles em que a gente põe a mão no coração, tampa a boca e pensa “puta merda”, mas o choque é tão grande que o corpo demora a reagir.

Abaixei. Peguei. Limpei a tela. Assoprei. Nada parecia ter acontecido. Destravei. Liguei para uma amiga que estava viajando para a República Dominicana. Conversamos. Contei do tombo. Ouvi o veredito:
— Ai, Seu João. Precisa trocar de aparelho.
Disse que não. Que gostava dele. Que estava tudo bem.
Não estava.

A bateria parou de carregar. A tela começou a travar. O áudio ficou distorcido. Ainda assim, insisti. Permaneci fiel mais um tempo. Até ceder. Levei à loja da Apple.
A atendente explicou que seria possível um reparo, mas que, pelo meu histórico com a marca, eu tinha direito a um upgrade. Agora eu precisava decidir: tentar consertar o que havia quebrado ou aceitar o novo.
Olhei para o telefone.
Olhei para mim.
Vi meu reflexo no espelho atrás do balcão. Me encarei olho no olho. Balancei a cabeça enquanto ela explicava. Tudo indicava que eu pediria o conserto.
Mas me ouvi dizendo:
— Não quero consertar. Preciso do upgrade.
Se a gente não se despede do velho, o novo não chega nunca.

A vendedora perguntou se eu queria transferir os dados.
Disse não.
Formatei tudo.
Apaguei fotos, mensagens e histórico.
Algumas coisas não merecem backup.
Saí dali com o um novo mundo na mão.
P.S.: Não tenho e nunca tive nada da Apple.

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