Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Você tem 90 segundos

Publicado em 21/07/2026 às 06:00.

— Professor, por que o senhor não dá sua aula em 90 segundos?

Como assim?

Desde a semana passada estou pensando nessa pergunta de um aluno: aulas de 90 segundos.

Eu gasto quase seis minutos andando para chegar à sala de aula quando estou no Deltec, que fica na sala 340, no campus Nova Suíça. Mas, às vezes, dou aula na sala 320. Isso significa passar por umas 20 salas, um hall, um miniauditório... e nem tem ônibus que passe direto no meio daquele corredor infindável.

Quando finalmente chego, me instalo, tomo água, ligo o ventilador, uso minha bombinha para asma e tento organizar a cabeça antes de começar. Depois gasto mais uns 15 minutos fazendo a chamada, considerando interrupções, comentários aleatórios e pedidos para entregar atividades esquecidas de três ou quatro aulas atrás.

Só então começo a aula.

Depois dessa maratona toda, eu teria que dar minha aula em 90 segundos?

90 segundos.

Um minuto e meio.

É curioso como esse tempo parece suficiente para quase tudo hoje.

Para aprender Código de Defesa do Consumidor, entender Filosofia, descobrir quem é o novo amor da Taylor Swift, a origem do meme six-seven, escolher um investimento, cozinhar um risoto e, com um pouco de sorte, descobrir o alimento que reduz até 50% e ainda seca a barriga em 21 dias.

Basta deslizar o dedo para cima.

Para tentar entender essa história, preciso voltar a 2001, quando tive minha primeira experiência séria estudando sozinho. Eu estava na sexta série e precisava me preparar para uma prova sobre a Inconfidência Mineira. Naquela época, a única forma de estudar era ter livros em casa, coisa que não fazia parte da minha realidade — ou recorrer à biblioteca pública.

Como eu morava no São Lucas, o Sesi Minas era o lugar mais próximo e onde eu já sabia me virar sozinho. Saía de casa 90 minutos mais cedo. Gastava 15 minutos até lá, estudava durante uma hora e caminhava outros 15 até o Colégio Pedro II, onde cursei da sexta à oitava série.

Li tudo disponível sobre o assunto, lá.

Decorei datas, nomes, causas internas, fatores externos, por que a Inconfidência deu errado, quem foi o bode expiatório...

Além disso, ainda tinha duas aulas seguidas de História, somando 140 minutos, duas vezes por semana.

Resultado?

Tirei um imenso e redondo oito.

Na prova que valia oito mesmo. Eu poderia dizer que valia dez para o meu causo ficar melhor, mas, como deveria ter guardado aquela prova de tanto orgulho que senti de mim mesmo, fico com o valor real.

Oito pontos.

Um parabéns.

E um conhecimento que carrego comigo desde 2001.

Videoaulas nunca foram novidade. A geração antes da minha estudou pelo Telecurso 2000. Depois vieram o ensino a distância, o YouTube, os podcasts e as aulas gravadas durante a pandemia. A tecnologia sempre ajudou muita gente a aprender.

Dá até para ouvir sobre a Revolução Cubana enquanto faz supino no banco de 45º graus ou um agachamento guiado.

Então precisamos reconhecer que o ensino digital sempre esteve entre nós.

Mas acho que a pergunta é outra.

Em que momento começamos a acreditar que aprender alguma coisa poderia caber em 90 segundos?

Não estou dizendo que vídeos curtos não ensinem.

Ensinam.

Mas muito pouco.

O problema é quando começamos a tratá-los como substitutos da experiência de estudar. Como se consumir uma informação em 90 segundos fosse sinônimo de compreender um assunto.

Acho que os desafios da nossa geração são a falta de informação e o excesso de pressa.

Temos sido convencidos de que tudo precisa ser rápido: a comida, a entrega, as notícias, os relacionamentos e, agora, o conhecimento.

Não  querendo ser o tiozão, mas preciso voltar ao começo desta conversa.

— Professor, por que o senhor não dá aula em 90 segundos?

Eu respirei fundo.

Pensei um pouco e lembrei que o tempo voa.

Olhei profundamente nos olhos do estudante e respondi:

— Mano... nos últimos 90 segundos eu ainda estou tentando entender por que você me chamou de senhor.

Como assim, senhor?

Senhor é teu pai.

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