Seu João XavierSeu João Xavier é doutor em Linguagens, Mestre em Linguística, Sociólogo e Professor do Cefet-MG. Escritor que promove pensamento crítico e práticas voltadas à justiça social

Você tem cara de quê?

Publicado em 28/04/2026 às 06:00.

Esta semana, lendo o jornal, me deparei com um artigo interessante: “Sobe o número de crianças registradas com nomes de plantas”. Até aí, nenhuma novidade. Rosas e Margaridas estão enraizadas na nossa sociedade há muito tempo.

Mas o texto não falava dessas florzinhas já conhecidas. Falava de novas combinações, digamos, mais ousadas. O primeiro exemplo foi Orquídea Helena. Confesso que achei interessante. Essa espécie até que ornou bem.

Não sei se foi o caso de Lívia Jasmin. Os dois nomes são agradáveis de se pronunciar, mas será que formam um bom arranjo? Mas confesso que estaria menos surpreso se visse esse nome no rótulo de algum vaso em uma floricultura.

Outro nome que me surpreendeu foi Gérbera. Nunca tinha ouvido. Fui pesquisar e encontrei um buquê lindo, colorido. Mas, confesso, essas três sílabas juntas me lembraram álgebra e outras coisas complicadas que não consigo associar a um rostinho de bebê.

Imagino a pessoa grávida, nove meses para decidir um nome, e chega na hora e escolhe algo assim. Não julgo. Mas faço um biquinho e torço o nariz, com todo respeito.

Violeta Gabriela, Íris Magnólia, Anne Camomila, Dalila. A lista foi colorindo e perfumando a página.

Esse negócio de dar nome é curioso. Ao mesmo tempo que é bonito e potente, também tem algo de autoritário. É decidir por alguém como ela vai se chamar pelo resto da vida. E se ela não gostar? Do primeiro nome, do nome do meio, do composto? E se for alérgica a flores? Que ironia!

Conheci muita gente que não gostava do nome de registro ou de algum sobrenome e resolveu mudar. Retificou. Se autobatizou. Escolheu como queria se apresentar ao mundo. Isso sim é poder.

Hoje só tenho animais de estimação. Dois deles têm nome de gente: Alcione e Tim Maia. Fico pensando se, tendo um filho, eu escolheria o nome a partir de alguma figura pública que admiro. Nomes podem ser homenagem, afeto, gosto pessoal ou até projeção.

Estão aí Sofia, Maria Felipa, Vitória e Estrela, assim como Aquiles, Hércules e até Jesus para confirmarem isso.

Acho tudo isso fascinante.

Antes víamos com mais frequência Dalva, Celeste, Eneida, Elzira, Geralda, Natalina. Hoje, nem tanto. Osvaldo, Claudomir, Reginaldo, Ezequiel e Celso também andam meio sumidos. Quais terão sido as referências para esses nomes?

Quando me apresento, algumas pessoas tentam contornar. Parece que chamar de Seu João implica uma intimidade ou uma formalidade que elas não querem assumir. Outras simplesmente ignoram. Às vezes corrijo, às vezes deixo passar. Depende do dia.

Uma prima, Ana Flora, tem um nome que parece poesia. Conheci uma senhora chamada Maria Gaivota e sorri quando ela se apresentou.

Escrevi outro dia um texto sério sobre o poder dos nomes e da identidade. Hoje, fico só pensando que, no fim das contas, entre flores, homenagens e invenções, dar nome é sempre um gesto meio definitivo para algo que ainda nem começou a florescer.

No fim, fiquei pensando naquela matéria do jornal. No aumento de crianças com nomes de plantas, nas Orquídeas, nas Gérberas, nas combinações improváveis que vão brotando por aí. Talvez dar nome seja isso mesmo, um gesto meio agrícola. A gente planta com intenção, escolhe com cuidado, rega com expectativa… mas não tem controle sobre o que aquela pessoa vai se tornar.

Pode ser que vire flor bonita, dessas que enfeitam a vida da gente. Pode ser que a pessoa cresça, olhe para o próprio nome e resolva podar, reinventar, recomeçar. E talvez esteja tudo bem. Porque, no fundo, entre um nome dado e um nome escolhido, o que a gente quer mesmo é florescer do nosso próprio jeito.

E você, tem cara de quê? Se não soubesse o seu nome, qual escolheria para enfeitar a sua identidade?

Compartilhar
Ediminas S/A Jornal Hoje em Dia.© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por