Existem pessoas que, aparentemente, estão com tudo em ordem: trabalham muito, entregam alto, cumprem prazos e são muito admiradas por isso, mas por dentro vivem uma constante insatisfação com seus próprios comportamentos. São tão exigentes consigo que acreditam estar fazendo pouco e poderiam/deveriam estar fazendo mais ou melhor.
Pessoas cuja forma de viver é se cobrando muito geralmente apresentam alguns comportamentos:
- dificuldade para relaxar, pois o descanso vem sempre acompanhado de desconforto;
- forte sentimento de culpa quando não estão fazendo nada, como se estivessem fazendo algo errado ou então desperdiçando tempo útil;
- quando não conseguem executar uma tarefa com excelência, têm o sentimento de fracasso, como se todo o resto do esforço não valesse;
- têm um nível de entrega alta, geralmente acima da média, mas, pelo nível de exigência, se acham aquém. Pensam que poderiam ter feito melhor;
- raramente têm a sensação de dever cumprido, ou, se sentem, dura pouco tempo, pois logo vem a próxima cobrança;
- aplicam em si um rigor que não aplicam em ninguém mais.
- vivem com a sensação de débito. Se sentem sempre devedores com o resultado ou em falta com alguém;
Que dívida é essa? Em geral, não corresponde a nenhuma cobrança real. É uma dívida imaginária que ninguém cobra, a não ser a própria pessoa. Freud observou em “O Mal-Estar na Civilização” que o supereu (superego), a instância psíquica que vigia e julga, torna-se mais severa quanto mais é obedecida. Ou seja, quem atende a cada exigência se distancia, na mesma proporção, da sensação de paz, pois aprimora o rigor do seu “juiz interno”. Por isso a meta aumenta toda vez que é alcançada. Chegar lá não alivia, apenas sobe a régua. Um buraco sem fundo, que além de não ter fim ainda traz muito sofrimento.
A consequência disso é a perda da capacidade de desfrutar. O prazer exige presença, e presença precisa de uma mente relaxada e não preocupada. A pessoa que vive o momento pensando no que está faltando nunca está satisfeita, pois a satisfação consiste justamente em desfrutar da forma possível e não perfeita. Coisa que o exigente desconhece!
E há um paradoxo cruel, pois quem se cobra muito geralmente o faz para provar para si seu valor, mas o julgamento é tão severo que ao invés de provar, destrói. O resultado disso é uma autoestima rebaixada, mas ricamente escondida por trás de uma performance impecável.
Querer fazer bem feito não é o problema. O resultado de quem faz um bom trabalho é a satisfação, e o descanso é legítimo. No padrão de alta cobrança, o valor da pessoa fica atrelado ao nível máximo de exigência, e ela só se sente digna quando isso acontece.
A pergunta que pode ajudar a desconstruir esse padrão autodestrutivo é: “por que e para quem estou querendo provar meu valor?”. E a partir daí iniciar novas condutas. Vale a pena tentar!