Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

A autocobrança e o prejuízo para a saúde mental

Publicado em 24/09/2026 às 06:00.

Existem pessoas que, aparentemente, estão com tudo em ordem: trabalham muito, entregam alto, cumprem prazos e são muito admiradas por isso, mas por dentro vivem uma constante insatisfação com seus próprios comportamentos. São tão exigentes consigo que acreditam estar fazendo pouco e poderiam/deveriam estar fazendo mais ou melhor. 

Pessoas cuja  forma de viver é se cobrando muito geralmente apresentam alguns comportamentos:

- dificuldade para relaxar, pois o descanso vem sempre acompanhado de desconforto;

- forte sentimento de culpa quando não estão fazendo nada, como se estivessem fazendo algo errado ou então desperdiçando tempo útil; 

- quando não conseguem executar uma tarefa com excelência, têm o sentimento de fracasso, como se todo o resto do esforço não valesse; 

- têm um nível de entrega alta, geralmente acima da média, mas, pelo nível de exigência, se acham aquém. Pensam que poderiam ter feito melhor;

- raramente têm a sensação de dever cumprido, ou, se sentem, dura pouco tempo, pois logo vem a próxima cobrança; 

- aplicam em si um rigor que não aplicam em ninguém mais.

- vivem com a sensação de débito. Se sentem sempre devedores com o resultado ou em falta com alguém; 

Que dívida é essa? Em geral, não corresponde a nenhuma cobrança real. É uma dívida imaginária que ninguém cobra, a não ser a própria pessoa. Freud observou em “O Mal-Estar na Civilização” que o supereu (superego), a instância psíquica que vigia e julga, torna-se mais severa quanto mais é obedecida. Ou seja, quem atende a cada exigência se distancia, na mesma proporção, da sensação de paz, pois aprimora o rigor do seu “juiz interno”. Por isso a meta aumenta toda vez que é alcançada. Chegar lá não alivia, apenas sobe a régua. Um buraco sem fundo, que além de não ter fim ainda traz muito sofrimento. 

A consequência disso é a perda da capacidade de desfrutar. O prazer exige presença, e presença precisa de uma mente relaxada e não preocupada. A pessoa que vive o momento pensando no que está faltando nunca está satisfeita, pois a satisfação consiste justamente em desfrutar da forma possível e não perfeita. Coisa que o exigente desconhece!

E há um paradoxo cruel, pois quem se cobra muito geralmente o faz para provar para si seu valor, mas o julgamento é tão severo que ao invés de provar, destrói. O resultado disso é uma autoestima rebaixada, mas ricamente escondida por trás de uma performance impecável.

Querer fazer bem feito não é o problema. O resultado de quem faz um bom trabalho é a satisfação, e o descanso é legítimo. No padrão de alta cobrança, o valor da pessoa fica atrelado ao nível máximo de exigência, e ela só se sente digna quando isso acontece. 

A pergunta que pode ajudar a desconstruir esse padrão autodestrutivo é: “por que e para quem estou querendo provar meu valor?”. E a partir daí iniciar novas condutas. Vale a pena tentar!

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