Uma queixa recorrente no consultório é a sensação que algumas pessoas têm de estar “carregando o mundo nas costas”. Sentem-se esgotadas, no limite, sobrecarregadas, exaustas, mas ainda assim seguem fazendo tudo sozinhas. Preferem se virar e resolver do que pedir ajuda.
Pedir ajuda não é tão simples quanto parece. É preciso analisar, com cautela, os fatores que levam alguém a sentir essa dificuldade. Ressalto alguns:
Medo de parecer fraco: algumas pessoas têm a crença de que precisar do outro é sinal de fraqueza. Crescem ouvindo que “forte é quem se vira sozinho” e internalizam isso como uma verdade. Passam a vida tentando provar que não precisam de ninguém para nada e acabam por não precisar mesmo. E isso gera outro problema, a autossuficiência solitária.
Medo de incomodar: muitos sentem que ao pedir ajuda serão um fardo na vida do outro e para não parecerem inconvenientes preferem recuar. No fundo, estão preocupados com a própria imagem. Em função disso “não incomodam” para não serem vistos como “chatos” e assim serem rebaixados no imaginário do outro.
Medo de ficar devedor: para algumas pessoas, principalmente as mais sensíveis, um pedido de ajuda cria uma sensação de dívida. Como se a contribuição do outro criasse uma obrigação de retribuir. Para não criar essa amarra, muitos preferem não pedir nenhum tipo de colaboração, nem mesmo para a família para não ter que contrair essa “dívida”, que em alguns casos fica realmente muito cara.
Medo da rejeição: para evitar ouvir um “não”, preferem resolver sozinhos a correr qualquer tipo de risco. Muitos desenvolvem isso após sofrerem decepções; outros, só de imaginar a negativa já desanimam de tentar.
Mas esse comportamento não se instala na vida adulta ou de uma hora para outra. Geralmente, essa dificuldade tem raízes na infância. Crianças que não foram acolhidas emocionalmente ou foram preteridas em função de um irmão ou de outras circunstâncias; que não tiveram seus pedidos de ajuda atendidos ou que aprenderam que demonstrar necessidade gerava punição ou indiferença acabaram desenvolvendo mecanismos de defesa e se tornam adultos que desaprenderam a pedir.
A parte boa é que, via de regra, essas pessoas se tornaram habilidosas, talentosas, transitam bem em vários ambientes, conseguem ser múltiplas e multifacetadas. Por outro lado, carregam consigo a sensação de que muito mais ajudam do que são ajudados, o sentimento de solidão aflora e o de exaustão, mais ainda.
Quebrar esse comportamento não é fácil, mas é totalmente possível e o caminho para começar seria fazendo a pergunta: o que estou carregando sozinho que poderia ser dividido? E a partir dessa resposta, ir aos poucos se abrindo para solicitação da contribuição alheia.
Ser ajudado alivia não só a nossa carga física, como também a emocional, fortalecendo os laços interpessoais, criando relações genuínas alicerçadas na ajuda mútua, ampliando a confiança no outro e aliviando a sensação de solidão. Vale a pena tentar!