Você tem um hobby? Faço essa pergunta frequentemente no consultório e quase sempre ouço que não há nada além de trabalhar, cuidar de casa e ir a alguns eventos pontuais. Hobby é uma palavra em inglês que significa passatempo, distração. É algo que fazemos com frequência, de forma ativa e que nos traz grande prazer. Ver televisão, ficar deitado no sofá ou rolando o feed de uma rede social, apesar de gerarem prazer imediato, não são hobbies - aliás, são sabotadores deles, visto que engolem todo o tempo livre e geram ansiedade.
Para que algo promova o verdadeiro bem-estar mental é preciso que seja praticado rotineiramente e de natureza autoconstrutiva. Pode ser algo artesanal, como pintura, bordado, cerâmica, culinária, escrita; físico, como esporte, atividade ao ar livre, ioga, corrida, ciclismo; ou intelectual, como leitura, novos idiomas, jogos de tabuleiro, aprendizados ligados a música, aprender a tocar instrumento.
Curioso é ouvir as pessoas dizerem que não há nada que elas gostam sem sequer terem experimentado. Claro que podemos ter ideias mais ou menos favoráveis sobre algo, mas afirmar categoricamente que não gostamos de algo que nunca fizemos é uma constatação equivocada.
Os benefícios são incontáveis. Além de uma vida mais rica e interessante, ter algo de que gostamos nos ajuda a aliviar o estresse, a ansiedade, nos dá um senso de propósito, desliga a mente das obrigações rotineiras, estimula a criatividade em função dos novos estímulos mentais, promove a possibilidade de conhecer outras pessoas, melhora a concentração e impacta diretamente na autoestima.
Uma pessoa sem distrações e atividades interessantes tende a enxergar a vida de forma mais dura, com pessimismo e negatividade, ficando com mais medos, mau humor e rigidez. Na velhice, isso tende a piorar. Se já temos resistência a aprender algo novo quando jovens, quando ficamos mais velhos a coisa piora. Isso ocorre tanto pelo declínio cognitivo quanto pela seletividade socioemocional: o primeiro tem a ver com a lentidão cerebral que ocorre com o passar do tempo, em que ficamos com mais dificuldades em armazenar informações novas e a processar mudanças. O segundo se refere à forma seletiva que a pessoa adquire querendo usar o tempo em coisas que lhes são familiares.
A pessoa que se conecta e gosta de várias atividades forma um repertório muito útil ao longo da vida, que se mostra importantíssimo frente ao vigor, baques emocionais ou até recomeços.
O hobby também funciona como um sinalizador de talento, como um teste vocacional, porém melhor, visto que ao longo do tempo vai sendo testado e aprimorado. Podendo ser, inclusive, um caminho muito interessante para a aposentadoria. Tenha um hobby!