Casamos para formar uma família, caminharmos junto com alguém, constituir patrimônio, compartilhar alegrias e tristezas da vida, e, se for do desejo de ambos, ter filhos. Unir a vida à de outra pessoa faz parte, entre outras coisas, de não se sentir só. Muitas uniões afetivas cumprem o que prometem; outras, nem tanto. Há muita queixa de pessoas que estão casadas, porém se sentem sozinhas - é a solidão a dois.
Além disso, a organização da casa para que tudo funcione bem, o cuidado com os filhos e as famosas “tarefas invisíveis” geralmente recaem sobre a mulher, que se sente exausta e reclama da falta de reconhecimento do parceiro, agravando ainda mais o sentimento de solidão. Mas os homens também têm queixas, e a maior delas é a falta de demonstração de carinho pelas companheiras. E assim, também se sentem sozinhos.
Esse é um tipo de solidão subjetiva, pois não se trata de não ter a pessoa por perto, mas de não tê-la no aconchego emocional. Uma sensação que ocorre por dentro. Mas isso vai crescendo aos poucos. Enquanto o casal está ocupado, criando os filhos, cheios de compromissos e com a casa cheia, essa sensação de solidão se arrefece, mas, com o tempo, a casa esvazia, os filhos crescem e saem, e o casal muitas vezes descobre que não sabe mais muito bem quem é um para o outro fora das obrigações do dia a dia. A rotina engole a intimidade, e o hábito substitui a presença. O casamento continua de pé, mas muitas vezes não passa de duas pessoas que dividem a casa, ora por conveniência, outras por comodismo. Nessa hora, uns continuam assim, e outros resolvem terminar essa relação para se abrirem a novas oportunidades.
Entretanto, quando vão para um segundo casamento, questionam o modelo tradicional de união, que é os dois viverem sob o mesmo teto.
Uma nova proposta (que não é tão nova assim) vem sendo cada vez mais praticada pelas pessoas, sobretudo no segundo casamento: o LAT, sigla em inglês para “Living Apart Together”, algo como “vivendo separados, juntos”. O conceito propõe casamento com casas separadas. Não se trata de “relacionamento aberto”, mas sim de uma escolha consciente por mais individualidade dentro da relação, sem desgaste da rotina e com mais presença.
As vantagens parecem ser promissoras:
- Preservação do desejo: com a convivência menos intensa, a monotonia diminui e a chama do desejo tende a permanecer mais acesa.
- Manutenção da privacidade: cada um preserva sua individualidade, seus ritmos e espaços.
- Qualidade nos encontros: a menor frequência faz com que o tempo compartilhado seja mais valorizado e intencional.
- Diminuição da sobrecarga e cobrança: com cada um cuidando do seu espaço, desaparece o cansaço extra e a sensação de que um está fazendo mais do que o outro.
- Liberdade: não ter que dar satisfação a todo momento sobre onde está, a que horas volta ou com quem fala ao telefone pode representar um alívio significativo para muitos.
O modelo LAT não garante a diminuição da sensação da solidão e muito menos que funcionará melhor do que o arranjo tradicional, mas é uma tentativa legítima e corajosa. Frente ao número de divórcios que só cresce, experimentar novas maneiras de preservar o casamento parece não só saudável como necessário.