Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

Análise psicológica sobre quem tem o ‘dedo podre’

Publicado em 26/02/2026 às 06:10.

Muitas pessoas afirmam não ter sorte no amor, vivenciam histórias de relacionamentos ruins com falta de reciprocidade, brigas, traições e relações tóxicas recheadas de ciúmes e manipulações, entre outras coisas. Atribuem isso ao “dedo podre” como sinal da má sorte, mas será essa a verdadeira causa dessas pessoas escolherem tão mal as parcerias afetivas?

Após anos ouvindo histórias dessa natureza, faço a análise de alguns fatores que podem ter a ver com as más escolhas:

A primeira delas está ligada à “síndrome de salvador da pátria” - pessoas que acreditam que estão na vida do outro para ensiná-lo e salvá-lo. Se comportam como um pai ou uma mãe que ensina o filho como deve fazer. Ajudam, ensinam, tomam frente, tentando transformar a vida do outro. A intenção pode parecer boa, mas como nos disse Freud, “tal qual as questões físicas, as psíquicas não são necessariamente aquilo que parecem ser na realidade”. O salvador da pátria não faz isso motivado por bondade e sim por fragilidade, por isso o desfecho quase nunca é positivo: aquele que foi beneficiado sai reclamando de tanta interferência e aquele que ajudou sai decepcionado com tanta ingratidão.

A segunda análise tem a ver com as pessoas que só se sentem atraídas quando há um desafio. Quando a relação parece ser tranquila e saudável a pessoa perde o interesse, gostam mesmo é do que é problemático, complicado, difícil e caótico. É muito comum encontrar pessoas com esse perfil e isso tem raízes na infância. A forma com que a criança recebe amor de seus pais, sobretudo da mãe, determina a qualidade das relações afetivas que irá estabelecer na vida adulta. Filhos que foram criados sem muito acolhimento emocional e aconchego por parte dos pais, num processo inconsciente, acabam buscando parcerias afetivas igualmente incapazes de acolher. Escolher alguém indisponível afetivamente é uma busca inconsciente de ressarcimento. Mas isso não funciona - aliás, só faz aumentar o rombo!

Seja pelo primeiro ou segundo motivo, pessoas com esse perfil têm algo em comum:

Baixa autoestima: por não existir um bom juízo de valor sobre si acabam aceitando menos do que merecem. Uma autoestima baixa faz com que a pessoa não se sinta merecedora do melhor.

Medo da rejeição: um “self” fraco tende a se sentir valorizado por meio da validação do outro. Isso explica a necessidade de ser útil, prestativo, assim como a dificuldade em falar “não”. O pensamento inconsciente é: quando mais útil eu for, mais fundamental me torno e menos risco de rejeição eu corro. Com isso se coloca como “amor de conveniência” para outro; e curiosamente, acaba perdendo a relação pelo mesmo motivo que acredita reter. Em cada término a autoestima fica ainda mais rebaixada, fazendo com que a pessoa aumente a doação. Um buraco sem fundo que só termina quando há uma conscientização do valor próprio.

Carência afetiva: o tamanho da carência é proporcional ao que a pessoa topa se submeter. Quanto mais carente, mais submisso e mais permissivo. O carente é regido pela ideia de que a presença do outro atenua seu vazio existencial. Só faz provar o contrário! Aquele que pensa que é melhor estar mal acompanhado do que só perde a oportunidade de se autodesenvolver e reforça a sensação de menos valia.

Ao fazer uma análise mais profunda sobre como se dá a escolha da parceria afetiva, conseguimos observar que o elemento “sorte” pode até estar presente, entretanto está longe de ser o determinante.

Há de se fazer um mergulho honesto dentro de si para apurar aquilo que estamos encobrindo para evitar enxergar nossa verdadeira responsabilidade.

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