Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

Ansiedade digital

Publicado em 14/05/2026 às 06:00.

Ansiedade é uma reação natural do corpo a situações de perigo ou estresse. O indivíduo, frente ao risco, produz substâncias para autopreservação que o ajudam a lutar ou a fugir - ou seja, a ansiedade é necessária para nossa sobrevivência,  mas desde que seja real. O problema começa quando o perigo ocorre somente na nossa imaginação. O organismo não diferencia o real do imaginário e age da mesma forma produzindo “munição” para o ataque. 

Tudo começa no nosso pensamento: imaginamos uma situação que, embora tenha possibilidades reais, é totalmente imaginária - como, por exemplo, ser demitido. A partir disso começamos a sentir medo, angústia, falamos sobre o assunto com amigos e familiares, levamos o tema para terapia e convivemos com essa preocupação permanentemente. Criamos então uma fonte geradora de ansiedade em nosso mundo “real-imaginário”.

Não bastasse isso, temos também o mundo “virtual imaginário”,  outra fonte de sofrimento e estresse disfarçada de entretenimento. O vício das redes, a comparação, a sensação de que está perdendo algo, o medo de julgamento ou rejeição frente à exposição, tudo isso drenando nossa saúde mental. 

Esta semana, estava no aeroporto aguardando meu voo há quase 2 horas atrasado. Ao meu lado, uma moça gravava um vídeo contando sobre o atraso do voo dela também, que depois vim a saber que não era o mesmo que o meu. Ela mostrou o café que supostamente estava tomando enquanto esperava e lamentava o atraso, mas dizia não se importar visto que trazia consigo um livro e iria aproveitar para adiantar a leitura. Até então, uma cena comum para as pessoas que gostam de postar o cotidiano nas redes. O problema é que ela gravou ao menos quatro vezes o mesmo enredo, até aprovar o conteúdo e postar. Não me causou espanto o fato dela não tomar o café, até porque ele já estava frio. O livro que seria o atenuador da espera também não foi aberto e logo em seguida um novo vídeo foi iniciado e a mesma história se repetiu: quatro ou cinco gravações seguidas e algumas mentiras cênicas. Passado poucos minutos, ouço a moça dar um grito de espanto: “ai, meu Deus, perdi meu voo”. 

A observação daquele comportamento me abriu várias reflexões, mas a principal delas foi o que denominei de “ansiedade digital”. 

Busca pela perfeição: melhor ângulo, melhor fala, tudo sintetizado dentro de um tempo ideal para não causar tédio nos espectadores, por isso as inúmeras repetições assim como uma cena de filme que deve ser refeita até atender ao critério de excelência do diretor. 

Verificação do engajamento: há uma ânsia que se instala após a postagem para saber se o conteúdo está reverberando de acordo com o esperado. Se não estiver, há uma frustração seguida de uma nova necessidade de superar-se. 

Preocupação com o novo post: a cabeça está sempre pensando em criar um novo conteúdo mais interessante, falar coisas novas nem que para isso seja necessário pregar umas mentirinhas. Aliás, mentira é o que mais se vê nas redes. 

Qualidade da imagem: antes de postar há a necessidade de submeter o conteúdo a filtros, retoques, reparos, IA, aplicativos etc. Só depois desse crivo é possível a postagem. 

Muitos pensam que estão livres dessa ansiedade por não postarem de hora em hora nas redes. Podem não ser criadores, mas são consumidores e sofrem o impacto no outro lado da moeda também. 

A ansiedade digital nasce da hiperestimulação, seja  produzindo ou consumindo. O cérebro humano não foi preparado para receber tantas informações, notificações, mensagens, vídeos curtos, cobranças, opiniões, comparações, excesso de imagens e tudo mais que acaba criando um estado contínuo de alerta mental. 

Não temos como modificar o mundo digital, que veio para ficar, mas precisamos cuidar da nossa mente para não sucumbirmos à rasura de conteúdos irrelevantes. 

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