Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

Ansiedade disfarçada de necessidade

Publicado em 13/08/2026 às 06:00.

A ansiedade é uma das queixas mais constantes e também muito difícil de ser eliminada. Isso porque ela nem sempre se apresenta com sintomas claros, como taquicardia, sudorese, pressão baixa, e sim de forma camuflada, como por exemplo a “urgência” ou “de necessidade”. O indivíduo é regido por uma ânsia que transforma uma situação rotineira em algo urgente e o banal em absolutamente fundamental. Mas isso nada mais é que a ansiedade o controlando. Abaixo, alguns exemplos:

Hiperatividade produtiva: a pessoa que nunca para, que precisa estar sempre fazendo algo, que sente que está perdendo tempo parada ou se sente culpada quando descansa. O excesso de planejamento com o futuro para preencher o tempo ou se ocupar com uma atividade só para não ficar quieto. Isso também inclui as checagens repetitivas ao celular verificando redes sociais, e-mails e mensagens várias vezes seguidas, mesmo já tendo verificado anteriormente. Em todos esses casos, o comportamento parece normal, mas pode estar escondendo uma tensão interna que precisa de vazão.

Cuidado excessivo: a mãe que liga três vezes por dia para o filho “só para saber se está bem”. O pai que verifica tudo o que o filho faz, que antecipa os obstáculos, que resolve cada problema antes mesmo que ele apareça. Por fora, parece dedicação, mas, por dentro, nada mais é que a ansiedade em ação. Nesse caso, o custo para o filho é alto: criado numa redoma de superproteção, ele chega à vida adulta sem desenvolver a capacidade de se virar, de tolerar a frustração, de confiar em si mesmo. A ansiedade do pai ou da mãe, disfarçada de amor, acaba limitando quem deveria proteger. Uma lástima, pois os pais se tornam míopes e incapazes de perceber a castração que estão efetuando em seus próprios filhos. 

O consumo: a pessoa sente um desconforto interno difuso, uma inquietação que não sabe nomear, e então vai às compras. Adquire algo que, sob a justificativa mental criada, parece ser absolutamente necessário: uma roupa para aquela ”situação especial”, mas que na verdade nunca vai acontecer, um item para casa que “talvez” irá precisar, uma promoção “imperdível”, e por aí vai. É verdade que  a compra traz um alívio imediato real, porém, passado algum tempo, o objeto tão desejado fica esquecido e a inquietação volta criando uma “nova necessidade”. A compra funciona como uma anestesia para a ansiedade quem vem acompanhada de uma fatura alta que traz mais ansiedade. 

Fome emocional: o estômago está satisfeito, mas a cabeça insiste que precisa de algo, um docinho, um petisco, uma porção. A pessoa come, sente um breve conforto e logo a sensação retorna. Claramente não é fome, é ansiedade se manifestando na inquietude. A comida oferece prazer imediato e ativa circuitos de recompensa no cérebro, por isso vira um atalho tão frequente para quem está ansioso por dentro.

O problema de não reconhecer a ansiedade nesses disfarces é que nunca se alcança a causa e por dentro o “motor” nunca desliga. O preço disso é irritabilidade, insônia, agitação interna, pensamentos intermináveis e ausência de paz e relaxamento. 

O ciclo só se interrompe quando a pessoa consegue olhar para o problema e perguntar: o que eu estou sentindo é real ou é emocional? Essa simples pergunta pode ser o começo da tomada de consciência que poderá resultar no domínio da tão danosa ansiedade. 

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