Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

Como o carnaval pode afetar nossa saúde mental

Publicado em 19/02/2026 às 07:04.

O feriado do carnaval não passa despercebido: além de ser uma festa com muitos dias, ainda faz parte da nossa cultura. Com a data sendo tão significativa, há de se avaliar o impacto que ela causa em nossa vida e especialmente em nossa saúde mental. Destaco alguns deles:

Comparação: as redes sociais nos deixam a sensação de que todos estão se divertindo mais ou melhor que nós. A hiperexposição com imagens e vídeos de festas, mostrando lugares privilegiados e shows, dá a entender que a diversão do outro está mais interessante que a nossa.

A comparação é fonte geradora de sofrimento. Não existe lado bom: se eu me comparo ao outro e me sinto inferior, há sofrimento e, por vezes, inveja. Se me sinto superior, isso reforçará a vaidade, sentimento oposto à felicidade. Sem contar que, na comparação, há sempre a necessidade que o outro fique pior para nos sentirmos melhor.

Além disso, a sensação de que “todos estão se divertindo” pode gerar uma angústia interna, levando ao aumento da ansiedade e do sentimento de que não estamos aproveitando a vida como deveríamos.

Preocupação com o corpo: a exposição do corpo num país tropical é grande, mas na época de carnaval é ainda maior. Muitos se preparam para essa época por meio de cuidados específicos e procedimentos estéticos com alto investimento. As pessoas públicas que são mostradas na mídia vivem da imagem e, por isso, ficam tão focadas nesse padrão de beleza - que mesmo não sendo acessível à maioria, ainda é o que a nossa sociedade valoriza - a se ver pelas modelos das grifes.

O culto ao corpo perfeito reforça esse padrão, oprimindo os demais. É verdade que estamos caminhando rumo a uma condição mais democrática, principalmente em relação ao corpo feminino, que sempre foi muito exigido, mas ainda há muito o que avançar.

FOMO como gerador de ansiedade: a sigla vem do inglês “fear of missing out”, que traduzida para o português significa “medo de ficar de fora” - medo de estar perdendo diversão, de conhecer pessoas, de aproveitar a vida.

Quem sente isso nunca está tranquilo com a opção que fez; ao contrário, está sempre pensando que a outra festa pode estar melhor, ou que deveria ter ido para outro lugar, fica correndo atrás de informações para saber como está a diversão em outra cidade ou recinto. A pessoa que sofre com isso não desfruta do momento presente, está sempre com a cabeça à frente, ora pensando que está perdendo, ora planejando o que está por vir. Grande fonte de ansiedade!

Festa para preencher um vazio: a diversão é algo positivo e uma ótima quebra de rotina. Entretanto, quando ela está a serviço de dar sentido à vida, pode ser perigoso.

As pessoas que usam as festas para preencher vazios existenciais costumam entrar numa tristeza profunda quando aquilo termina. A se ver aqueles que entram em depressão quando precisam voltar à rotina.

Tão importante quanto a diversão é o prazer que sentimos no dia a dia. Caso contrário, iremos sempre depender de finais de semana recheados de grandes eventos para sermos felizes.

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