Falamos muito sobre depressão em adolescentes e adultos, sobre a pressão do trabalho e sobrecarga de tarefas, gerando uma exaustão física e emocional. Mas há uma faixa da população que sofre não pelo excesso de atividades, mas pela falta dela: a terceira idade. E os números não deixam dúvida sobre a gravidade disso. Segundo dados do Ministério da Saúde, pessoas acima de 60 anos estão entre os grupos com maiores taxas de suicídio no Brasil, e a curva cresce entre os mais idosos, especialmente homens acima de 70 anos.
O problema fica ainda maior, pois dificilmente o idoso se reconhece deprimido. Ele acredita estar cansado, pois dorme mal, ou não sente mais vontade de sair porque perdeu o interesse pela maioria das coisas e que isso faz parte da idade. E é justamente aí que mora o perigo: a naturalização do sofrimento psíquico como se fosse uma etapa inevitável do envelhecer e não um adoecimento que pode e deve ser tratado.
- Existem fatores que tornam essa fase da vida mais vulnerável:
- Perdas de entes queridos como do cônjuge, de amigos, membros da família;
- Perda da própria autonomia física
- Aposentadoria sentida como perda de valor social e de propósito
- Isolamento, muitas vezes agravado por dificuldades de locomoção
- Doenças crônicas e dor física constante, que desgastam o emocional
- Sensação de inutilidade ou de ser um peso para a família
- Dificuldade de diagnóstico de sintomas depressivos, pois estes são confundidos como algo inerente à idade, teimosia de idoso ou com quadros demenciais
Interessante observar o impacto da sociedade sobre o estado emocional dos idosos. Na Europa ou nos Estados Unidos, por exemplo, é comum o idoso continuar inserido no mercado de trabalho, em atividades voluntárias, em cursos, projetos comunitários, e grupos que buscam manter o idoso produtivo e ativo, e com isso, sustentam nele a sensação de utilidade e pertencimento. Não é raro ver pessoas de 70, 80 anos empreendendo, lecionando, participando de conselhos, associações, tratadas como uma força social ainda relevante e mais, sendo considerado como uma pessoa de grande sabedoria, uma espécie de mestre a qual todos respeitam e buscam orientação. Já por aqui, é diferente.
No Japão, por exemplo, o idoso é culturalmente visto com profundo respeito e reverência como fonte de sabedoria e experiência. A sabedoria dos mais velhos é valorizada, e o país celebra oficialmente o Dia do Respeito ao Idoso, um feriado nacional dedicado a homenagear a longevidade.
Aqui no Brasil, em geral, não encontramos esse acolhimento, ao contrário, a aposentadoria marca o fim do papel produtivo, o mercado de trabalho raramente reabsorve quem já passou dos 60. A sociedade, de modo geral, não cria espaços de participação ativa para essa fase da vida. O resultado é um vazio de propósito que, somado à ausência de perspectivas, contribui diretamente para o adoecimento emocional dos nossos idosos que se sente descartado pela sociedade.
A depressão na terceira idade vai além de queda física ou biológica de neurotransmissores, ela ocorre sobretudo pela carga emocional da sensação de fim antecipado. Se manter ativo é uma excelente fonte de saúde mental.