Apesar de não percebermos, nem sempre somos nós que fazemos as escolhas mais importantes da nossa vida. A influência dos condicionados nos impede de conseguirmos diferenciar aquilo que queremos do que fomos estimulados a querer. Com isso, muitas vezes as escolhas vêm ora para agradar a família, a sociedade ou para corresponder a um ideal que imaginamos que esperam de nós.
Mas nem sempre esse estímulo é explícito. Ao contrário, ele costuma ser bem silencioso e de forma escamoteada ir moldando nossos desejos, criando medos e fazendo com que acreditemos que estamos seguindo nossa própria vontade.
Um bom exemplo é o casamento. Nem todas as pessoas querem se casar, ou não querem fazer isso tão cedo, mas se sentem “pressionadas” e acabam tomando essa decisão.
O solteiro por opção, ou pelos percalços da vida, gera tanta estranheza e especulações que acaba autorizando o questionamento alheio sobre sua dificuldade de convivência e sexualidade. Um equívoco, visto que o solteiro, ainda que sozinho, é muito mais feliz do que o mal casado - que também não deixa de degustar a solidão.
Na mesma perspectiva, temos a escolha da profissão. Muitas vezes um filho nem pensa na profissão que de fato gostaria, pois já tem em mente que se formará na mesma área de um dos pais, ora por pressão velada, ora por acreditar que isso irá agradar a família. Dar continuidade ao legado dos pais vira destino acreditando ser escolha.
Uma história curiosa aconteceu: conheci uma pessoa em um evento que logo no início da conversa me perguntou com o que eu trabalhava. Quando respondi que era psicanalista, ele, num ato instantâneo de total espontaneidade, respondeu: “Deus me livre, minha filha quer essa profissão aí, mas eu falei para ela que nem pensar, pois ela vai morrer de fome. Tem que ser advogada, engenheira”. Eu apenas respondi: “Se serve de ajuda, eu não morro de fome”. Ele, já bem constrangido, tentou fazer uma piada para aliviar, mas talvez precisasse mesmo era de uma sessão de psicanálise. Nada como uma boa terapia para se ouvir.
Outra questão recorrente é a dúvida sobre ter ou não filhos. É fato que sobre esse assunto houve um avanço significativo - há algumas décadas, essa dúvida sequer teria espaço para existir. No passado, quem decidia não ter filhos era visto como uma espécie de traidor da sociedade, ou um egoísta. Só era permitido não ter filhos se houvesse algum problema de saúde, jamais por vontade própria.
Ainda hoje, mesmo com mais abertura, os condicionamentos são tantos que até as mulheres mais decididas têm medo de se arrependerem, não por elas mesmas, mas porque ouviram tantas vezes que “uma mulher só se realiza na maternidade” ou “só se conhece o verdadeiro amor quando se tem filhos”. Será? Temos as mães que jogam filhos no lixo, que permitem companheiros abusarem das filhas, que as prostituem ou até que narram um arrependimento da maternidade. Por isso, não deveríamos afirmar um sentimento próprio como sendo uma verdade coletiva.
A pergunta que fica é: das escolhas que você fez até agora, quantas foram realmente suas? Será que conseguimos responder, verdadeiramente, a essa pergunta?