Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

Existe segredo para a longevidade?

Publicado em 02/07/2026 às 06:00.

Essa semana fui a um aniversário de 90 anos e algo me chamou a atenção: a jovialidade e o vigor do aniversariante. Vejo algumas pessoas envelhecerem bem, cheias de energia para com a vida, enquanto outras não apresentam o mesmo ânimo. Fica a pergunta: que fazer para envelhecer bem? Sabemos da importância do fator genético, entretanto a vitalidade vai muito além disso.

A ciência está sempre buscando  fórmulas para o ser humano viver mais, mas acaba confirmando aquilo que os mais velhos já sabiam intuitivamente: a longevidade tem a ver com a forma como se conduz a vida.

Pesquisadores identificaram ao redor do mundo as chamadas Zonas Azuis — regiões onde a concentração de centenários é muito maior do que a média global, como a ilha de Sardenha, na Itália, ou Okinawa, no Japão.

Mas às vezes nem precisa ir tão longe, a vida simples do interior também tem muito a nos ensinar. O que os longevos têm em comum não é acesso a tecnologia de ponta ou suplementos sofisticados. É algo bem mais simples e, ao mesmo tempo, bem mais difícil de praticar no mundo moderno.

Um resumo dos 5 pilares que o estudo apresenta:

Propósito de vida: em Okinawa existe um conceito chamado “ikigai”, que significa “uma razão para acordar de manhã”. Ter um motivo claro para existir, seja cuidar do jardim, dos netos ou de uma comunidade, mantém o cérebro ativo e o emocional equilibrado. Pessoas sem propósito perdem o sentido da vida, e isso impacta diretamente na vontade de viver.

Vínculos sociais genuínos: solidão crônica é tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia, é o que diz o estudo. Nas Zonas Azuis, as pessoas cultivam relações próximas, têm sentimento de pertencimento e não vivem isoladas. A qualidade dos vínculos afetivos impacta diretamente na imunidade, no humor e na longevidade.

Equilíbrio emocional: não se trata de nunca sofrer, mas de saber lidar com o sofrimento sem se afundar nele. Pessoas longevas tendem a ter menos rancor, mais leveza e uma relação mais tranquila com o que não podem controlar. O estresse crônico, ao contrário, é um dos maiores aceleradores do envelhecimento.

Movimento natural: nas comunidades mais longevas do mundo, ninguém vai à academia todos os dias. Mas todos se movem: caminham, trabalham na terra, sobem escadas. O corpo foi feito para se mover, não para ficar parado o dia todo e compensar com uma hora de esteira.

Alimentação simples e sem excessos: menos industrializado, mais natural. E uma prática curiosa de Okinawa: comer até 80% da saciedade, nunca ao ponto de estufar. Uma sabedoria antiga que a ciência hoje confirma.

O que esses cinco pilares nos comunicam vai além da longevidade, é uma lição sobre como viver bem. A forma simples de conduzir a vida, a energia concentrada no dia de hoje, o desapego em relação ao amanhã e, talvez o mais importante de tudo, o foco no coletivo. 

Pessoas felizes pensam na comunidade, gostam de ajudar, se sentem parte de algo maior do que elas mesmas. O foco não é a busca por reconhecimento, mas a sinceridade da contribuição. E isso contrasta muito com o estilo de vida moderno, com pessoas cada vez mais individualistas, focadas em conquistar, acumular e exibir, tendo como preocupação central os próprios interesses. Num mundo obcecado pelo excesso, essas pessoas nos ensinam que o que realmente sustenta uma vida de qualidade é aquilo que não se compra nem se posta: os vínculos sinceros e o propósito de vida. 

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