Feminicídio é o assassinato de mulheres por questões de gênero; ou seja, uma desqualificação e rebaixamento somente pelo fato dela ser mulher. Trata-se de morte de fato, onde a vida é eliminada. Entretanto, há mortes que não são físicas, mas sim emocionais. Não há uma cerimonia fúnebre, ao contrario, essa morte ocorre de forma silenciosa e invisível sem que quase ninguém perceba. A morte também é lenta, mata-se a alegria, o sorriso, a autoestima, a individualidade da mulher e submete a maus-tratos humilhantes sob a justificativa de amor.
Esse processo corrói a potencia vital provendo a morte em vida. São comentários que diminuem, comparações constantes, comportamentos que geram insegurança, ciúme doentio, o afeto que vem e vai como recompensa por bom comportamento, o gaslighting que faz a mulher duvidar da própria sanidade. E a frase "você está exagerando”, ou “voce é sensível demais”, repetida por anos, até que ela realmente pare de confiar em si mesma.
No consultório, vejo isso com uma frequência assustadora. Mulheres que chegam sem saber nomear o que sentem, apenas dizendo não se reconhecem mais. Queixam-se que perderam o brilho, a vontade de viver, a espontaneidade e o entusiasmo perante a vida. Muitas vezes ainda estão fisicamente inteiras, bonitas, bem vestidas e cuidadas por fora, mas por dentro, se encontram em frangalhos emocional.
A Organização Mundial da Saúde reconhece a violência psicológica como uma das formas mais recorrentes de violência doméstica, mas, como ela não deixa hematomas visíveis, acaba sendo minimizada, inclusive pela própria vítima, que só nomeia o abuso anos depois, quando já perdeu partes centrais de si.
Os sinais mais comuns que observo são
- Isolamento progressivo de amigos e família
- Sensação constante de estar "errada" ou "sendo dramática"
- Perda de interesse por atividades que antes traziam prazer
- Medo de expressar opiniões ou desejos próprios
- Sentimento de estar "pisando em ovos" dentro de casa, o tempo todo
- Culpa por conflitos que não criou
- Medo de desagradar o parceiro e sofrer as consequências
- Alta irritabilidade e desesperança de um futuro melhor
Freud dizia que o “self" ou seja, a constituição do “eu”, se constrói também pelo olhar do outro. Quando esse olhar é sistematicamente usado para rebaixar, desqualificar e criticar, esse "eu" não fortalece, ao contrário, ele se enfraquece. E é exatamente isso que o feminicídio emocional faz: encolhe a mulher até que ela se esprema para caber no espaço que o parceiro determinou para ela.
A recuperação começa com o mais difícil dos passos: perceber o massacre emocional e distinguir que isso não significa cuidados e nem tão pouco amor. O abuso financeiro, físico, emocional, espiritual, é uma forma de assassinato. Relacionar-se só se justifica se a parceria afetiva edificar, nunca, jamais, matar.
Vale ressaltar que existem mortes que não aparecem no atestado de óbito, apenas ceifam a vida por dentro. Uma lástima!