A hipocrisia nasce sempre que há uma máscara social protegendo algo que não pode, ou não deve, ser dito. A questão é que nem sempre quem usa essa máscara faz uma autocrítica sincera. Ao contrário: julga o outro pelo mesmo crime que comete; porém, para fora, o rigor; mas para si, a explicação.
A conduta hipócrita aparece de diversas formas:
- no discurso de tolerância que esconde um julgamento severo ao outro;
- na generosidade pública que convive com ressentimento guardado em segredo;
- na indignação com o erro alheio e a dificuldade de reconhecer o próprio;
- na lição de moral que não se aplica na prática.
Dias desses, olhando as redes sociais, vi a postagem de uma pessoa que conheço há muito tempo, com quem tenho convivência próxima a ponto de saber que ela fez uso das canetas emagrecedoras que a ajudaram a perder mais de 30 quilos. O curioso foi descobrir que ela se tornou coach de emagrecimento e construiu seu discurso em torno apenas da força de vontade, posicionando-se completamente contra qualquer tipo de medicação nesse processo.
Outro exemplo são casais que vendem uma imagem de amor perfeito, exibindo bilhetes carinhosos, presentes e juras de amor públicas, porém na intimidade têm a vida conjugal destruída e pegam todos de surpresa quando se separam.
Nos dois exemplos, o ponto central é a hipocrisia, mas que poucos conseguem enxergar devido à farsa. A maioria dos espectadores questiona-se, se acha fraca na tentativa de conter seus desejos e se acha fracassada no amor. Em ambos os casos, quem praticou a hipocrisia causou uma sensação de incompetência em quem acreditou no discurso mentiroso.
A questão é que, até que a verdade apareça, se é que ela aparece, seguimos acreditando na farsa. Há situações, porém, em que não há sequer disfarce: conseguimos perceber claramente o desalinho entre a prédica (o discurso) e a prática (a ação). Nesses casos, devemos acreditar na prática, pois ela revela a real intenção do indivíduo. Já a prédica está a serviço de enganar o outro e de autopromoção com virtudes que não existem.
Freud chamou de formação reativa o mecanismo psíquico pelo qual um desejo ou sentimento inaceitável é transformado em seu oposto e vivido com total convicção. A pessoa que mais condena a agressividade pode ser, por dentro, a mais cheia de raiva. Quem mais prega sobre honestidade pode ser quem mais teme ser flagrado fazendo algo errado. Não é cinismo, é defesa: a consciência não suporta certos conteúdos, e o psiquismo os converte em discurso contrário para que a pessoa continue se reconhecendo como boa.
Diante disso, a pergunta mais honesta que podemos fazer, sobretudo agora, nessa época de polarização política, é: “O que eu falo está alinhado com o que eu faço?”; “Eu realmente sou essa pessoa que acolhe, com amorosidade, quem pensa diferente de mim?”. Se a resposta for “não”, vale a pena, ao menos, cessar o discurso, pois mudar o comportamento exige ser verdadeiro, algo muito difícil para os hipócritas.