Simone DemolinariPsicanalista com Mestrado e dissertação em Anomalias Comportamentais, apresentadora na 102,9 e 98 FM

Inveja: o sentimento que escondemos de nós mesmos

Publicado em 01/10/2026 às 06:00.

Um dos sentimentos mais difíceis de admitir é a inveja. Muitos se sentem alvo dela, mas quase ninguém acredita senti-la. Quando se trata de raiva, tristeza, medo, culpa, fica mais fácil de mapear, mas dificilmente isso ocorre em relação à inveja. Essa vem cercada de vergonha, pois há uma crença de que é um defeito de caráter. Mas isso não é verdade. Não devemos julgar o caráter pelo que sentimos e sim pelo que fazemos. 

Podemos tentar disfarçar a inveja, mas aos olhos mais atentos ela se revela evidente por meio de  alguns comportamentos, tais como: 

- na dificuldade genuína de comemorar a conquista do outro, mesmo torcendo por ele;

- num comentário levemente ácido que escapa sem querer;

- no distanciamento repentino de uma amizade, sem motivo claro; 

- na comparação constante sobre o salário, o casamento, os filhos, a aparência, os bens materiais privilegiados; 

- numa sensação de alegria/bem-estar quando o amigo passa por uma dificuldade;

- na sensação de que o sucesso do outro diminui o próprio valor; 

- num alívio quando o outro tem algum dissabor: não passa numa prova, não consegue engravidar, termina um relacionamento, etc.

A inveja pode iniciar na infância, dentro de casa, entre irmãos disputando a atenção dos pais, ouvindo frases como: “Seu irmão sempre teve mais facilidade que você”, recebendo tratamento diferenciado onde somente o comportamento de um é exaltado. 

Melanie Klein descreveu a inveja como um dos afetos mais primitivos e mais difíceis de elaborar, justamente porque ataca o vínculo com quem tem algo bom que nos falta. Diferentemente do ciúme, em que se teme perder algo que já se tem, a inveja lida com a falta e com uma espécie de tristeza pela felicidade do outro, ainda que só em pensamento, extremamente escondido no canto mais obscuro da mente. 

Mesmo trancado a sete chaves, o sentimento por si só contribui para o rebaixamento da autoestima. 

O problema aumenta quando a inveja não é reconhecida nem admitida. Assim como os sentimentos que jogamos no “alçapão do nosso inconsciente”, ele não fica lá trancado. Ao contrário, sai por vias tortas em forma de auto-sabotagem; críticas disfarçadas de sinceridade; deboches; ironias, além de impedir o desfrute das próprias conquistas, pois a régua da comparação nunca desliga, fazendo daquela pessoa um eterno insatisfeito. 

É importante ressaltar que nada de bom resulta da comparação, ela é apenas fonte geradora de sofrimento.

Se nos comparamos com o outro e nos sentimos inferiores, há sofrimento ou sentimento de inveja. Se nos sentimos superiores, isso despertará em nós a vaidade e a soberba, sentimentos opostos à felicidade. Sem contar que na comparação sempre será preciso que um fique mal para o outro ficar bem. Não há ganhos, só perdas. 

Aqueles que buscam evoluir emocionalmente, inclusive deixando de sentir inveja, devem cessar o vício de se comparar com o outro e começar a fazê-la a partir de si mesmo e assim avançar naquilo que deseja. 

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