Um dos sentimentos mais difíceis de admitir é a inveja. Muitos se sentem alvo dela, mas quase ninguém acredita senti-la. Quando se trata de raiva, tristeza, medo, culpa, fica mais fácil de mapear, mas dificilmente isso ocorre em relação à inveja. Essa vem cercada de vergonha, pois há uma crença de que é um defeito de caráter. Mas isso não é verdade. Não devemos julgar o caráter pelo que sentimos e sim pelo que fazemos.
Podemos tentar disfarçar a inveja, mas aos olhos mais atentos ela se revela evidente por meio de alguns comportamentos, tais como:
- na dificuldade genuína de comemorar a conquista do outro, mesmo torcendo por ele;
- num comentário levemente ácido que escapa sem querer;
- no distanciamento repentino de uma amizade, sem motivo claro;
- na comparação constante sobre o salário, o casamento, os filhos, a aparência, os bens materiais privilegiados;
- numa sensação de alegria/bem-estar quando o amigo passa por uma dificuldade;
- na sensação de que o sucesso do outro diminui o próprio valor;
- num alívio quando o outro tem algum dissabor: não passa numa prova, não consegue engravidar, termina um relacionamento, etc.
A inveja pode iniciar na infância, dentro de casa, entre irmãos disputando a atenção dos pais, ouvindo frases como: “Seu irmão sempre teve mais facilidade que você”, recebendo tratamento diferenciado onde somente o comportamento de um é exaltado.
Melanie Klein descreveu a inveja como um dos afetos mais primitivos e mais difíceis de elaborar, justamente porque ataca o vínculo com quem tem algo bom que nos falta. Diferentemente do ciúme, em que se teme perder algo que já se tem, a inveja lida com a falta e com uma espécie de tristeza pela felicidade do outro, ainda que só em pensamento, extremamente escondido no canto mais obscuro da mente.
Mesmo trancado a sete chaves, o sentimento por si só contribui para o rebaixamento da autoestima.
O problema aumenta quando a inveja não é reconhecida nem admitida. Assim como os sentimentos que jogamos no “alçapão do nosso inconsciente”, ele não fica lá trancado. Ao contrário, sai por vias tortas em forma de auto-sabotagem; críticas disfarçadas de sinceridade; deboches; ironias, além de impedir o desfrute das próprias conquistas, pois a régua da comparação nunca desliga, fazendo daquela pessoa um eterno insatisfeito.
É importante ressaltar que nada de bom resulta da comparação, ela é apenas fonte geradora de sofrimento.
Se nos comparamos com o outro e nos sentimos inferiores, há sofrimento ou sentimento de inveja. Se nos sentimos superiores, isso despertará em nós a vaidade e a soberba, sentimentos opostos à felicidade. Sem contar que na comparação sempre será preciso que um fique mal para o outro ficar bem. Não há ganhos, só perdas.
Aqueles que buscam evoluir emocionalmente, inclusive deixando de sentir inveja, devem cessar o vício de se comparar com o outro e começar a fazê-la a partir de si mesmo e assim avançar naquilo que deseja.