Na semana passada, escrevi sobre ludopatia e alguns sinais que mostram a fronteira tênue entre diversão e vício. Tive acesso a alguns relatos que podem ajudar a ilustrar o problema. Abaixo, os depoimentos, de forma resumida e preservando o anonimato.
A., 24 anos
“Eu sempre fui bom em investimentos financeiros, e aos poucos fui me tornando o investidor da família toda. Tinha um trabalho formal, mas em paralelo sempre com a tela do computador aberta, olhando os investimentos.
Um dia, por distração, não finalizei uma operação e deixei a aba aberta por umas cinco horas. Quando voltei, tinha perdido tudo, estava com um rombo impagável. A única forma de tentar resgatar o dinheiro rapidamente foi através das apostas, que no fundo só pioraram a situação.
O conselho que eu deixo é: se você estiver no desespero, não entre na aposta. Não consigo dimensionar a decepção da minha família comigo.”
M., 22 anos
“Minha mãe se separou do meu pai e nosso nível de vida caiu. Eu a via chorar pelos cantos da casa, e aquilo me cortava o coração. Tive a ideia de ganhar dinheiro no jogo para ajudá-la nos problemas financeiros. Logo no começo já perdi, e continuei jogando para tentar recuperar pelo menos o que havia apostado.
Como eu tinha acesso à conta da minha mãe, fui usando o dinheiro dela, era uma reserva para comprar um apartamento, tudo o que ela tinha, R$ 600 mil. A gente morava com minha avó. Não percebi, mas quando vi, tinha gastado todo o dinheiro dela. Então pedi para minha avó atualizar o aplicativo do banco e descobri a senha e tive acesso ao dinheiro da aposentadoria e também peguei um empréstimo em nome dela.
Quando minha mãe descobriu, foi uma tragédia lá em casa. Cheguei a tentar tirar minha vida, e hoje vivo com desejo de voltar a jogar pois no fundo acredito que posso ganhar tudo de volta.”
R., 40 anos
“Comecei apostando na bolsa de valores e perdi R$ 22 mil. O dinheiro era meu e da minha esposa, e ela não sabia que eu tinha perdido. Resolvi então recuperar o dinheiro através de apostas e jogos online. Daí em diante só perdi: gastei tudo no cartão de crédito, fiz empréstimos e até empréstimo em nome da minha esposa. O total passou de R$ 100 mil.
O irmão dela fez um empréstimo para pagar nossa dívida. A cabeça ficou tão ruim que fui demitido do emprego e minha esposa se separou de mim. Gastei minha rescisão, vendi um carro pela metade do preço e precisei da ajuda de amigos para recomeçar.”
O que esses relatos têm em comum?
Não é só o valor perdido. É um padrão imediatista, com pensamentos obsessivos, impulsividade, decisões tomadas sozinho, mentiras para encobrir o comportamento e o jogo usado como tentativa de resolver um problema financeiro anterior. O que fica, no fim, é a vergonha e a sensação de fracasso.
Jogar por diversão, de forma moderada e com capacidade real de parar, é saudável. O problema começa quando o jogo deixa de ser lazer e passa a ser usado como atalho para resolver uma dívida, uma perda ou uma urgência financeira.
Nesse momento, a lógica se inverte: em vez de ser uma escolha, o jogo vira a única saída possível aos olhos de quem já não enxerga alternativa, e é exatamente essa sensação de urgência, mais do que a vontade de enriquecer, que sustenta o ciclo e o torna tão difícil de interromper.
Se você ou alguém próximo enfrenta essa dificuldade, vale a pena abordar o problema, sem julgar , indicar um profissional de saúde qualificado para acompanhar, ou então indicar os centros especializados: Cersam (Centro de Referência de Saúde Mental); Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188.